Imagens de Alfama

Antiga cerca Moura ou romana

"Lisboa romana, Lisboa moura, Lisboa dos cruzados: o desenho da cidade fez-se entre muros e depois galgou-os, digeriu-os, apagou-os. Procurar, estudar e iluminar o que resta é o projecto do Museu da Cidade.
Numa rua do bairro da Sé, as picaretas abrem o que parece uma vala. Telefone? Gás? Cabo? À volta, uma cerca de metal isola o trabalho. Um cartaz explica: é de "Estudo e Valorização da Cerca Velha de Lisboa" que se trata. A cerca velha (em oposição à cerca nova, a muralha mandada construir em 1373 pelo rei D. Fernando para suster as invasões castelhanas e que ganhou o cognome de "fernandina), passa algures por aqui, não se sabe exactamente onde.
A sondagem não resulta: fecha-se o buraco e recomeça-se mais abaixo, no largo de Santo António da Sé, onde, crê-se, estará situada a "porta de ferro", a entrada principal da cidade moura. Um buraco, dois, e nada. "Estamos a tentar perceber onde ela está. Andamos mais para oeste ou para este, à procura." A arqueóloga Manuela Leitão, 47 anos, coordenadora do projecto, tem uma explicação para a dificuldade: "Esta zona sofreu obras de reestruturação urbanística depois do terramoto de 1755. Limparam muita coisa e as cotas das ruas foram rebaixadas." Pode ser até que nada se encontre e que o traçado da muralha permaneça estimado, como na obra de referência do olisipógrafo Vieira da Silva (que nos finais do século XIX desenhou o traçado com base em estudos documentais), numa curva que prossegue a linha recta da Rua da Padaria e sobe na direcção do castelo, talvez sob os jardins suspensos que fazem das traseiras da Rua de São Mamede ao Caldas uma das maravilhas invisíveis de Lisboa. Mais um sortilégio escondido, então, o desta muralha que na sua zona oriental é visível em vários troços - aquilo que Manuela chama "panos". "Com o tempo a muralha foi 'engolida' pelo crescimento da cidade. Há uma série de edifícios que a usaram como mais uma parede, as torres foram sendo ocupadas. Mesmo quando não se consegue ver ela continua perceptível pelo alinhamento das ruas, das fachadas dos prédios." Também as escavações da parte oriental da muralha têm tido mais sucesso: a parte da cidade que lhe corresponde mantém as mesmas características há muito e os solos não sofreram aquilo a que a arqueóloga dá o nome de "desmobilização de terras", estando preservados todos os níveis ou estratos antigos: "Os níveis mais antigos que encontrámos pertencem à Idade do Ferro, século VI antes de Cristo."
Viabilizado financeiramente em 2008 através de uma parceria com o Instituto do Turismo, este projecto, no qual concorrem "dezenas de pessoas", incluindo, além dos investigadores - arqueólogos, geólogos, historiadores e antropólogos - desde cavadores a polícias, passando por bombeiros, existia como ideia no Museu da Cidade desde o final dos anos 90, como forma de recuperar a memória e a presença de um monumento que, afirma Manuela Leitão, "estava esquecido". A ideia é localizar e assinalar com o máximo de certeza possível as portas e alinhamentos dos cerca de dois quilómetros da muralha medieval, restaurar os panos expostos e proceder à sua iluminação monumental, assim como estabelecer percursos pedonais com sinalização ao longo da muralha. "A última fase do projecto será a instalação de um centro interpretativo sobre a muralha de Lisboa, que terá como objectivo principal o dar a entender a muralha inserida nas várias cidades onde esteve." Várias muralhas, várias cidades: se o nome dado à cerca medieval é "velha", não se trata afinal da mais idosa. Há vestígios de uma muralha do século I e de outra construída mais tarde, no século III/IV, ambas pelos romanos e cujo traçado terá sido, crê-se, aproveitado em parte pelo muro medieval - primeiro islâmico e depois cristão - que se lhe seguiu. É dentro desse mistério, o de saber a que ponto as muralhas romana e medieval se sobrepõem, que Vítor Filipe, 35 anos, passa os dias, no rés-do-chão da Casa dos Bicos. "Estamos a tentar perceber coisas que as escavações mais antigas não esclareceram. Encontrámos algumas estruturas que não eram conhecidas e estamos a tentar interpretá-las." O trabalho, de paciência - "A arqueologia às vezes é um pouco chata, não corresponde à ideia romântica que as pessoas têm e a parte mais interessante, a da descoberta, acaba por ser reduzida" -, e muito complexo, explica o arqueólogo, pela segmentação que torna mais difícil compreender a articulação das estruturas encontradas e pela presença da água, que não só dificulta a visão como mistura os níveis. "Temos todas as sondagens ao nível freático, algumas com mais de dois metros de profundidade. Às vezes é um pouco frustrante, mas também é aliciante por ser tão complexo." Até ao final de Agosto, altura em que está calendarizado o final da intervenção na Casa dos Bicos, Vítor espera satisfazer duas grandes curiosidades: "Uma é a da cronologia da construção da muralha romana tardia (que já encontrámos) e se a cerca fundacional romana passa ali. Outra é de quando é a construção da fábrica romana de salga de peixe cujos tanques se encontraram. Sabemos que a muralha fundacional romana tem dois metros de espessura e que a muralha a seguir, do séc III, tem três. Está lá uma muralha com um metro de espessura, mais antiga que essa, mas não sabemos se é a fundacional ou outra, por exemplo da fábrica."
Vítor Filipe, que não faz parte dos quadros do Museu da Cidade, entrou no projecto em Dezembro, tendo começado pela escavação da rua São João da Praça (junto à Sé de Lisboa), onde foi descoberto um pano da muralha durante as obras de um restaurante, o Páteo de Alfama (em todas as obras que envolvam "remexer terras" na zona classificada tem de haver escavações arqueológicas antes), que o integrou no seu espaço. Aliás, o acolhimento dos habitantes e comerciantes da zona de incidência ao projecto tem sido, diz Manuela Leitão, de bastante interesse. "Por exemplo: há um snack bar que se chamava Arco Íris e mudou de nome, para 'Porta de Alfama', porque uma das portas da muralha era naquela zona; vêm-nos perguntar quando fazemos uma exposição para mostrar o que encontrámos, comen- tam 'Ai que giro'. É bom que as pessoas tenham esse entendimento, porque o património é de todos."
O património como casa de família e morada, como um lugar em que se caminha em camadas de tempo e sentido, aprendendo a ver. É o caso do historiador Miguel Gomes Martins, 45 anos, da divisão de arquivos da Câmara Municipal de Lisboa. "Comecei a tomar mais um pouco de atenção aos locais onde ponho os pés e a olhar um pouco mais para as paredes em vez de só olhar para cima à procura das torres." Há três meses no projecto da cerca velha, este medievalista, cujo trabalho é o completar, informar ou contrapor, através da pesquisa documental, as descobertas arqueológicas, já teve algumas surpresas: "Foram achadas barbacãs - que são uma espécie de pré-muralhas, uma primeira cintura de muralhas, erguidas em locais considerados mais sensíveis -, uma a leste do perímetro e outra no local onde, de acordo com os documentos, se julgava estar."
Os documentos em causa são sobretudo descrições - de geógrafos muçulmanos, nomeadamente - e registos (de transações e alugueres de casas), assim como alguma iconografia, já que a primeira planta cartográfica de Lisboa digna desse nome é de 1650. Quanto à descoberta na cidade material, é sobretudo "um jogo de puzzle mental". Ver a cidade medieval na Lisboa de hoje: "Um emaranhado de casas, algumas de cinco pisos, ruas apertadas e sinuosas, pisos poeirentos no Verão e enlameados no Inverno (as vias empedradas em Lisboa são bastante tardias), com palácios, muitas igrejas, alguns edifícios conventuais que se destacavam pela dimensão, com montes de lixo sobretudo junto às portas da cidade..." Uma cidade sem esgotos onde os dejectos eram lançados na rua (apesar de haver ordens em contrário) e onde a maioria das pessoas não teriam como prioridade tomar banho (apesar das estruturas criadas pelos mouros para as abluções diárias em Alfama, cujo nome virá exactamente de "nascente") - mesmo se, leal à sua paixão por uma época sempre associada à sujidade (no sentido material e espiritual), o historiador tenta desmistificar "a ideia de que durante uns séculos ninguém tomou banho". Uma cidade de cuja muralha velha escolhe um troço desaparecido: "O meu favorito é o da torre da Escrevaninha, que se situaria no quarteirão onde está hoje a igreja da da Conceição Velha (na rua da Alfândega). É o local onde uma das torres dos cruzados adossou à muralha, facto que foi decisivo para a rendição muçulmana." À falta dessa, escolhe ser fotografado noutro lugar de "combates intensos em 1147": a porta de ferro, no largo de Santo António da Sé, a tal que ainda não se descobriu. Só um pouco de imaginação, então: uma muralha, uma porta enorme revestida a ferro e os gritos e sons da batalha entre os cruzados invasores e os sitiados muçulmanos. E nós, resultado disso."

In Diário de Notícias

Porta de água


João Luis Carrilho da Graça venceu o concurso público internacional e impôs o seu projecto a nomes de grande prestígio na arquitectura mundial como Zaha Hadid ou Aires Mateusprojectos: Terminal de cruzeiros.
Lisboa vai ter um Terminal de Cruzeiros com projecto de João Luis Carrilho da Graça, que venceu o concurso público internacional e impôs o seu projecto a nomes como Zaha Hadid ou Aires Mateus.
Situado na zona de Santa Apolónia, o projecto de Carrilho da Graça procura ser um mediador entre a cidade e o rio. Ou, conforme o próprio explica no texto-síntese do projecto, "a criação do novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa oferece uma oportunidade rara de repensar e questionar a relação vivencial e urbana entre a cidade de Lisboa e o rio Tejo, alvo de inúmeras propostas ao longo dos séculos, uma consequência da importância desta relação na caracterização e desenvolvimento de uma cidade que assume a sua vocação portuária natural"
No seguimento deste pensamento, o arquitecto dá igual importância ao edifício construído - que alberga o programa do terminal de navios - e aos espaços exteriores adjacentes. E propõe um edifício volumetricamente compacto , que liberta o espaço envolvente, "reclamando-o para o uso público, oferecendo à cidade e aos bairros adjacentes um espaço verde de referência, com capacidade de comportar diferentes actividades", explica. Esta solução de transição entre as vivências do rio, edificado e parque apresenta ainda valências do ponto de vista urbano e paisagístico, explicadas por Carrilho da Graça : "A escala contida do edifício aproxima-o da escala urbana, enquanto o espaço libertado garante a distância necessária para contemplação da encosta de Alfama, marcada pelo skyline do Mosteiro de São Vicente de Fora e do Panteão Nacional, que se conforma como um anfiteatro em torno do porto."
Aparentando uma jangada e assumindo-se como uma nova porta da cidade, "o edifício preconiza uma solução simples e compacta, com grande racionalização dos meios e sistemas utilizados, aliada a um uso do espaço flexível". Qual pavilhão multiusos, o edifício responde exemplarmente às necessidades dos navios e mareantes, albergando espaços de check in, espera, cafetarias e lojas . Mas também propõe novos usos em complemento à sazonalidade da ocupação do terminal - com maior pressão nos meses quentes -, como espaços expositivos, destinados a eventos como ciclos de moda e cinema , feiras e mercados.
Esta versatilidade é acentuada pelos espaços imaginados por Carrilho da Graça: no interior, domina um grande hall de entrada, assumidamente cénico graças ao pé-direito duplo e lanternim oval. No exterior, a pele construída é dominada por um percurso/promenade que envolve o edifício, permitindo a descoberta lenta da envolvente - enquanto se percorrem os vários alçados - e que culmina na cobertura do edifício, "que ganha características de palco, relacionando-se com o rio sem qualquer tipo de obstáculos, como uma praça elevada".
Mais perto da cidade, o parque urbano/verde evoca os boulevards que ao longo dos tempos foram propostos para Lisboa, como aconteceu nos séculos XVIII, XIX e XX pelas mãos de Carlos Mardel e Thomé de Gamond, entre outros. Do ponto de vista formal, este espaço "organiza-se como um eco da doca, definido por elementos que se dispõem paralelamente aos seus limites longitudinais, como as longas fileiras de árvores ou passeios".
Entre a cidade e o rio, e permeável a ambos, o futuro Terminal de Cruzeiros será um ponto notável na cidade e marca o regresso de Lisboa à sua vocação marítima. Através da arquitectura de Carrilho da Graça, "a relação visual rio/cidade ganha tanta importância como a da cidade/rio, encontrando-se o parque e o edifício na transição, coexistindo e potenciando-se mutuamente".
O arquitecto Carrilho da Graça ganhou o concurso para projectar o novo terminal de cruzeiros de Santa Apolónia, lançado em Março pela Administração do Porto de Lisboa (APL). O júri, que avaliou os 37 trabalhos concorrentes, foi unânime ao considerar que a proposta de Carrilho da Graça se traduz "num claro benefício" para a cidade e para o seu porto. O projecto do autor de alguns edifícios emblemáticos da capital - como o Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na antiga Expo "98, ou a recente Escola Superior de Música - convenceu o júri por incluir um "edifício relativamente pequeno, com uma volumetria delicada", sublinhou o grupo de avaliadores composto pelo arquitecto catalão Juan Busquets e o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, entre outros. Ao PÚBLICO, Carrilho da Graça explicou que a ideia-base do projecto foi "partir da intervenção que a APL quer fazer na zona e criar espaços que possam ser desfrutados pela cidade, independentemente de haver cruzeiros ou não". A dimensão prevista permite minimizar o impacte visual do terminal, um assunto que tanta polémica suscitou no passado junto dos moradores do bairro de Alfama. Estes temiam perder a vista sobre o Tejo, caso avançasse o anterior projecto da APL. O júri apreciou também a cobertura visitável do terminal, o que converte o edifício numa "nova topografia da cidade, entre a colina de Alfama e o Tejo", salienta a APL, no comunicado em que anuncia o vencedor. Outra preocupação do arquitecto foi tornar o espaço polifuncional. "Nos períodos com menos paquetes, a zona pode ser utilizada com outros objectivos, como concertos ou exposições", explica. Além de um grande parque verde urbano, que preenche a área envolvente, eestacionamento (para cerca de 80 autocarros), a proposta vencedorainclui um anfiteatro exterior com vista para o rio e para a cidade. O terminal de cruzeiros vai juntar-se à lista de obras emblemáticas deste arquitecto, que tem no currículo ainda a Escola Superior de Comunicação Social e a extensão do Palácio de Belém.
A primeira fase do projecto deverá estar concluída em 2013. Terá uma área total de 7790 metros quadrados, envolve um investimento superior a 25 milhões de euros, pagos pela APL, que promoveu o concurso em parceria com a Câmara de Lisboa e a Ordem dos Arquitectos.
Além do projecto de Carrilho da Graça, o júri destacou, pela qualidade, mais quatro projectos. Receberam menção os gabinetes de Aires Mateus Arquitectos, Guillermo Vazquez Consuegra, ARX Portugal Arquitectos e Zaha Hadid Limited.
 
In Publico
 
Comentário de Blogger:
Apesar de parecer bem melhor que a anterior proposta. Pelo menos espero que fique como aparece e que o jardins sejam para todos os cidadão e não apenas para os turistas.
Mas esperemos que seja apresentado o plano à população para podermos ver, discutir e se for bom para a cidade e Alfama, aprovar.

Entrevista com Argentina Santos

Antes de receber a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa, Argentina Santos recorda desgarradas e histórias de família, fala dos poemas das ruelas de Alfama e das novas vozes do fado
Marcou a entrevista para a hora do chá e, à chegada do gravador e da máquina fotográfica, tinha bule e torradas prontas. "Os senhores vêm do jornal? Sentem-se, por favor, que já sei que isto não vai demorar cinco minutos." Argentina Santos, 86 anos, 62 de carreira, gere a casa de fados Parreirinha de Alfama e faz de cada resposta uma história curiosa de outros tempos. Não vale a pena falar do AVC que sofreu no ano passado nem de "gente que não interessa". O seu é um dos grandes nomes da história do fado e basta-lhe recordar poemas e desamores para se desfazer em lágrimas.
Vai ser homenageada esta semana, a segunda vez este ano.
Sim, mas a primeira foi muito ao de leve, passou despercebida. Sei que muita gente só me vai conhecer agora, mas eu já estou aqui [na casa de fados] há 62 anos. Mas não tenho vaidade. Nem nunca fui às rádios pedir para pôr um disco meu. Nada disso. Mas estou cá. Entrei aqui ainda não tinha 24 anos. E vou fazer 87.
Quando?
A 6 de Fevereiro.
Não tem vaidade. Mas tem orgulho?
Sim, isso sim. E fico em polvorosa quando ouço falar em mim. Numa destas noites estava a chegar a casa, ainda não eram duas da manhã, e ouvi o meu nome na rádio. Estavam a falar da festa. Fiquei... As lágrimas vieram-me logo aos olhos.
Quer isso dizer que olha para trás e fica satisfeita, conseguiu fazer o queria.
Isso nem eu nem ninguém. O mundo ainda estaria pior se toda a gente fizesse aquilo que quer. A gente só faz aquilo que pode, aquilo que nos deixam, e isso já é bom.
Deixaram-na fazer muita coisa?
Foi complicado... mas isso já passou.
Mas não desaparece.
Sim, é como o vinho, quando está bom ganha aquele resíduo. Essa parte não se bebe, o resto é que conta.
Ainda canta todos os dias?
Canto quando é preciso cantar, quando tenho público que gosta de fado. Agora se é público que gosta de marchas e palminhas, eu não sei fazer isso.
Quem vem à Parreirinha são os turistas ou são sobretudo portugueses?
Tenho de tudo um pouco. E os estrangeiros, a maioria, já sabe o que é fado e o que é bater palmas.
As palmas aborrecem-na?
Não, isso não me aborrece nada. As pessoas quando vêm de férias vêm para se divertir, não para um velório. Mas já tive de tomar atitudes. Em tempos fui cantar a uma igreja, a uma festa que costumam fazer para arranjar uns tostões. Estava a cantar e pediram-me a "Lágrima". Pois toda a gente sabe que a "Lágrima" é uma coisa com sentimento. E estavam duas senhoras a dançar. Eu disse "estou a gostar muito de ver aquelas pessoas dançar, quando elas acabarem eu canto".
O fado é, portanto, uma canção que requer disciplina.
O problema é que as pessoas vêm ouvir fado mas não sabem o que é fado. No fado tem de se tomar conta no que se canta. E um poeta faz coisas muito bonitas de uma só palavra. É como uma reza.
A religião é importante para si?
Sou muito religiosa, mas não espero que cantem por mim, peço é ajuda aos meus santinhos.
Não canta se o fado não lhe disser nada?
Não, tem de falar de mim, da minha vida, de alguma coisa que me esteja a acontecer. Mas não quero que toda a gente sinta assim o fado.
Porquê, se diz que é assim que tem de ser?
Porque seria uma tristeza. Para isso mais valia ficar em casa. Mas quem não gosta não estraga.
Qual é o seu fado favorito?
Um poema à minha mãe, do Augusto Martins. Foi ele que fez e que me ofereceu. Chama-se "Duas Santas".
Mas também há fados alegres.
Sim, mas é preciso ver a letra e saber se podemos cantá-la ou não. Eu não posso cantar uma coisa à minha mãe, que já morreu há tantos anos, e rir-me à gargalhada. Se o fizer sou parva. A minha mãe, tenho que a cantar com sentimento. Porque é quando os nossos não existem que a gente se lembra mais deles. Claro que depois há gente que bate palmas a tudo. Essas pessoas vêm ao fado por vaidade, não é porque gostam. Não estão a sentir nada. Mas esta é uma conversa que não tem nada a ver com a minha homenagem.
E na sua opinião o que a destaca de outros fadistas para ser homenageada?
Isso eles é que sabem. Eu não pedi nada a ninguém. Se o fazem é porque tenho sido uma pessoa honesta, fiel aos meus pertences. Quem está ligada a uma casa e aos seus empregados há 62 anos merece qualquer coisa.
Antes de trabalhar na Parreirinha o que é que fazia?
O que calhava. Levantava-me às quatro da manhã, ia descarregar barcos de peixe. Ou ia vender, fruta, hortaliça, peixe, o que havia. Até podia ter vendido chumbo, mas não calhou. Um dia não tinha que comer fui carregar umas sacas e deram-me sete tostões.
Isso representava o quê?
Olhe, ia-se a uma casa de pasto e comia--se uma sopinha. Quando me vi com aquele dinheiro nem acreditei.
A sua família vivia com dificuldades.
Vivíamos muito mal. O meu pai não morreu, matou-se, tinha eu dois anos. A minha mãe ficou com quatro filhos. Eu fiquei entregue à minha madrinha. Mas não queria que ninguém passasse fome. Ia para a Ribeira arranjar carapaus e sardinhas e levava para casa. À noite íamos para o Limoeiro. Conforme davam comida aos presos davam-nos a nós. Quando não chegava para todos, ia numa carroça para as Mónicas, para as presas.
Mas quando chegou ao restaurante já tinha uma vida diferente?
Sim, morava na minha casa nas escadinhas da Bica, onde estive dos 16 aos 37. Mas fazia sempre a vida em Alfama.
E foi em Alfama que começou no fado?
O fado apareceu porque tinha ligação com um senhor que foi quem tomou esta casa. Eu tinha jeito para cantar e comecei numa desgarrada. Nessa altura nem se cantava à viola, era só à guitarra e ao piano. E os clientes pediram-me para continuar a cantar. Quinze anos depois esse senhor morreu. Para ficar por aqui teve a casa de ser comprada. Ele não era meu marido, era casado com outra pessoa, não podia ser comigo. Era um companheiro.
Começou a tomar conta da cozinha.
É uma coisa que gosto muito de fazer. Não sei se gosto mais de cantar se de cozinhar. Mas gosto é de improvisar, não me mandem cozer batatas com bacalhau.
E hoje, continua pela cozinha?
Sim, e ensino muito bem. Eu é que tomo conta disto tudo. Escolho e compro, digo como se faz e não se faz... Ensino. Porque se vierem aqui e não comerem bem... Para gastar dinheiro é em qualquer lado.
Tudo isto aconteceu quando?
Em 1963, um ano antes de fazer asneira.
Asneira como?
Casei-me. Não correu muito bem. Ao fim de cinco anos o meu marido ficou numa cama, com uma trombose. E não era pêra doce, era uma pessoa complicada. São chatices que nós arranjamos.
E entre as chatices onde estava o fado?
Nos espectáculos. Fazia muitos, sobretudo lá fora. E agora não tenho feito mais porque não tenho vida para isso. Mas vêm aqui ao restaurante perguntar por mim.
Quem é que canta na Parreirinha? Chegam aqui fadistas e dizem-lhe "olhe, quero cantar aqui"?
Não, fado vadio não é aqui, é nas lojas dos 300, há muitas por aí. Aí canta quem calha. Não canta o almeida que anda a limpar às ruas porque não calha.
Os fadistas de hoje são diferentes dos que conheceu há 40, 50 anos?
Acho que hoje vão rezar muitos padre- -nossos ao pé da senhora dona Amália. Porque foi ela que deixou cá a herança. Deixou cá coisas bonitas para elas estragarem. Mas há coisas que nunca mudam. Isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda. Só depois os outros. Raro é aquele que pensa "Deus queira que na tua vez te batam palmas assim".
Mas há quem cante muito bem.
Claro que há. E com uma coisa a favor: eles têm repertório, como as coisas da dona Amália, uma mestra, uma pérola que caiu do Céu. Pena é que muitas vezes não sintam nada do que estão a dizer. Mas como é bonito ainda levam palmas. Só que as palmas não são para elas, são para quem fez o fado, para os outros que o cantaram.
Era mais próxima de algum fadista em particular?
Conheci muitos, dei-me com toda a gente. Mas o que as pessoas eram a cantar podiam não ser em casa. A Amália era uma artista, mas eu não frequentava a casa dela. Mas como artista, para mim, é a maior. Hoje há gente a cantar bem, tão bem que se fossem do tempo dela ela não tinha ido tão longe. Além de cantar bem, não foi ela que se pôs lá em cima, puseram-na.
Carlos do Carmo diz que a Argentina é a última representante da geração de ouro do fado...
Isso depende do gosto. Mas sempre fiz as coisas à minha maneira, deve haver alguém que goste. E não é fácil gostar porque sempre fiz tudo à minha maneira. Se me dissessem que estava a cantar mal dizia logo "então cante você". Mas quando eu comecei a cantar ainda o Carlos do Carmo era um menino.
É um dos seus maiores fãs.
Sempre gostei muito daquele menino, era muito esperto. Vinha aqui ter com a mãe, de calçãozinho. Tinha ele 14 anos e ouvi-o a falar com o pai, até fiquei espantada. O pai queria comprar uma casa ao lado do Faia. E o miúdo dizia "não te metas nisso, já tens a outra casa para te dar dores de cabeça". Estava eu numa mesa perto da deles na Feira Popular. Fiquei com uma coisa por ele que não sei explicar, como se fosse meu filho.
E ele não se cansa de a elogiar...
É. Canso-me mais eu, mas não é dele nem de cantar.
Cansa-se de quê?
Não me canso de cantar, mas canso-me disto, de tomar conta da casa. É até um dia.
 
In Jornal I

Arraiais cheios de sardinha onde não falta exotismo - Portugal - DN

Arraiais cheios de sardinha onde não falta exotismo - Portugal - DN

Alfama vencedora das Marchas de Lisboa


Alfama foi a vencedora do concurso das marchas populares de Lisboa deste ano, com Marvila e a Bica a ocuparem o segundo e terceiro lugar, respectivamente. Veja as classificações em baixo.
As classificações foram hoje, domingo, divulgadas pela EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), a entidade responsável pela organização da iniciativa.
Alfama venceu nas categorias de Melhor Coreografia, Melhor Musicalidade e Melhor Desfile na Avenida; Alcântara venceu a Melhor Composição Original e Melhor Letra; Carnide e o Castelo venceram ex-equo o Melhor Figurino, enquanto a Melhor Cenografia foi para as marchas da Bica, Marvila e Mouraria.
No ano passado, Alfama também ganhou as marchas de Lisboa, juntamente com o Castelo.
No sábado à noite desfilaram pela Avenida da Liberdade 24 marchas, mas participaram no concurso 20 que este ano tiveram como tema o centenário da República.
Ao concurso regressaram este ano as marchas de Benfica e Penha de França, tendo ficado de fora os bairros de Belém e Campolide, dois últimos classificados em 2009.
As marchas de Lisboa são avaliadas com uma pontuação de 0 a 20 em dois momentos, no Pavilhão Atlântico (nos passados dias 04, 05 e 06 de Junho) e na Avenida da Liberdade (12 de Junho) nas categorias de coreografia, cenografia, figurino, melhor letra, musicalidade, melhor composição original e desfile da avenida.
Classificações finais das marchas populares 2010:

1º Alfama - 247

2º Marvila - 238

3º Bica - 230

4º Bairro Alto - 222

5º Alcântara - 217

6º Castelo - 210

7º Mouraria - 209

8º Madragoa - 206

9º Santa Engrácia - 204

10º Beato - 201

11º São Vicente - 196

12º Bela Flor - 189

13º Carnide e Graça (ex-aequo) - 187

14º Olivais - 186

15º Alto do Pina - 185

16º Baixa - 176

17º Penha de França - 174

18º Lumiar - 171

19 º Benfica - 148

SuperCaliFragilistic - Novo restaurante em Alfama


O SuperCaliFragilistic, no típico bairro lisboeta, tem mesas, cadeiras e transmite jogos do Benfica mas a cozinha experimental distingue-o de outras casas de repasto do mesmo género


Alexandra Sumares e Sofia Garrido eram duas trabalhadoras descontentes com a situação laboral e bem-sucedidas na organização de festas. Da inquietação à acção fizeram vingar a teoria do caos numa "tasca atípica" na íngreme Rua dos Remédios, em Alfama.

Chama-se SuperCaliFragilistic esta casa de repasto que vive da relação entre o antigo e o moderno. Ou, nas palavras de Alexandra Sumares, uma ex-promotora discográfica, um cruzamento entre "experimental e tradicional". E porquê tasca? "O conceito é o de uma tasca, por causa das mesas e por sermos um bocado caóticos". A partir deste conceito de abrangência, uma combinação que tenha como base a transmissão de um jogo do Benfica não será recusada. Muito pelo contrário.

Há uma cozinha "aberta e integrada", em que a criatividade é aplicada em iguarias como bombons de morcela, ovos de codorniz com maionese picante de caril e maçã, ou almôndegas de alheira e cogumelos com puré de batata-doce.

O menu de entradas tem pesto de manjericão, pesto vermelho, húmus, mousse de abacate, pasta de azeitonas, manteiga de alho e as sopas de miso amarelo com algas e camarão ou alho-francês com pimenta, parmesão e cebolinho. Para acompanhar, porque não um cocktail com champanhe e sumo de limão?

Por ser um "espaço de convívio", o SuperCaliFragilistic está disponível para receber quem queira comer e também quem ali se desloque simplesmente à procura de regar a conversa com líquidos. "É restaurante e bar. Muitas vezes, as pessoas vêm aqui jantar e ficam até às 02.00. Não há muitos espaços assim em Lisboa", explica Alexandra Sumares.

A escolha de Alfama não é inocente. "Para mim, é o bairro mais giro de Lisboa. É calmo e não tem o stress do Bairro Alto. Este não é um restaurante para putos. Pode ser, mas não são eles que normalmente vêm", defende também, acrescentando que "quem experimenta normalmente volta", parte da clientela é estrangeira e ainda que mais de metade das visitas ocorrem mediante marcação prévia.

E os preços: 14,5 euros para o tártaro de atum, corvina ou salmão; mil-folhas de camarão com caril e manga a 10,5€ euros; peito de pato com frutos silvestres e porto com cubos de milho frito a 12,5 euros, entre outros. E, para quem está atento à música e prestar atenção ao menu, a sobremesa Primavera de Destroços é mesmo uma homenagem aos Mão Morta.

In Diário de Notícias.

Palmas e muita euforia na apresentação das Marchas - Portugal - DN

Palmas e muita euforia na apresentação das Marchas - Portugal - DN

25 milhões para terminal de cruzeiros


Com dois pisos e estacionamento subterrâneo, o novo terminal de cruzeiros em Santa Apolónia, Lisboa, terá um custo de 25,5 milhões de euros e poderá estar em funcionamento no final de 2013. Um projecto em tudo diferente do anterior, que tanto celeuma provocou.
Do famigerado estudo de construção que levou a Câmara de Lisboa, em 2007, a contestar as intenções da Administração do Porto de Lisboa (APL), relativamente ao novo terminal de passageiros em Santa Apolónia, desapareceu um edifício de 600 metros de cumprimento em frente ao rio, um hotel com dois pisos, uma área comercial e outra para escritórios.
O que permanece neste novo estudo, estimado em 25,5 milhões de euros e a estar concluído dentro de três anos? Somente um estacionamento subterrâneo, de um piso, com capacidade para 500 veículos. Serão mais de 7700 metros quadrados - bem inferiores aos 20 mil inicialmente pensados -, guiados por um conceito de interligação com Alfama, que manterá o interface com o metropolitano e comboio.
460 mil passageiros
Tudo com um único objectivo: responder ao aumento da procura do porto por cruzeiros. Este ano, tendo em conta o anúncio das escalas, prevêem-se 460 mil passageiros.
Segundo Natércia Cabral, presidente da APL, o equipamento resulta de um acordo com a Câmara Municipal de Lisboa (CML). "Não fazia sentido que a gare tivesse funcionalidades que os passageiros encontrariam na cidade", disse, ao JN, ontem, à margem da apresentação do concurso público de concepção para a elaboração do projecto do terminal, em Santa Apolónia. "A proposta que hoje apresentámos era a única que poderia funcionar", acrescentou, rejeitando comentar as anteriores intenções da APL, que motivaram fortes críticas, desde movimentos cívicos lisboetas a figuras como Miguel Sousa Tavares.
Para o presidente da CML, António Costa, o concurso marca o início "de uma nova era no relacionamento entre" o município e a APL. "O terminal de cruzeiros vai ser uma zona de reabilitação da Baixa e encosta de Alfama", considerou o autarca.

In Jornal de Noticias

Carrinhas Funebres impedidas de entrar em Alfama


"Vielas de Alfama/Ruas de Lisboa antiga/Não há fado que não diga/Coisas do vosso passado." O fado da cantora Mariza não fala na experiência recente do bairro. Incluindo o condicionamento de trânsito das vielas de Alfama, que já provocou casos caricatos. Este aconteceu em Fevereiro. Um cortejo fúnebre queria passar para a Igreja de São João da Praça, mas, devido ao condicionamento de trânsito naquela zona histórica, teve de esperar. "Não queriam deixar passar a carreta; só depois de mais de uma hora é que lá deixaram", conta José Augusto, da Leitaria São João da Praça, mesmo em frente à igreja.
O condicionamento ao trânsito nos bairros históricos - Bairro Alto, Alfama, Santa Catarina/Bica e Castelo - começou no Verão de 2003, conduzido pela Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL). Mas foi no Verão passado que surgiu um folheto a anunciar o cartão recarregável "Viva Viagens Bairros Históricos", que só permite o acesso a visitantes mediante uma caução de 25 euros - transformados em tempo de parqueamento.
Contactada pelo i, a EMEL afirmou "não ter registo de qualquer funeral". Porém, ao ser questionada sobre a possibilidade de abrir excepções para os familiares dos mortos que queiram velar o corpo ou seguir em cortejo fúnebre, a empresa rejeita o argumento humano. "O acesso está condicionado e não vemos como fazer excepção para esses casos", disse ao i Diogo Homem, do marketing e comunicação da EMEL.
O presidente da Junta de Freguesia da Sé, Filipe de Almeida Pontes, afirmou ao i que já pôs paróquia e EMEL em contacto. "Há cinco meses que há uma casa mortuária nova nas traseiras da Igreja da Sé e antevi logo problemas. Falei com a EMEL para perceber o que se podia fazer nos casos dos cortejos fúnebres, se podiam pôr o pino para baixo nesse tempo, mas disseram-me que não era possível porque o sistema teria de ser desligado e isso afectaria todo o sistema."
Para entrar em Alfama, moradores e comerciantes têm de pagar 12 euros anuais à EMEL, enquanto os fornecedores que façam cargas e descargas têm de pagar um cartão de 25 euros - uma situação que motivou reuniões entre a EMEL e a Associação de Comerciantes no mês passado. Segundo informações da EMEL, as cargas e descargas deverão passar a ter direito ao mesmo estatuto que moradores e comerciantes. Porém, nem todos ficam abrangidos pelo acordo.
É o caso de Manuel Ferreira, 59 anos e morador em Alfama desde sempre. Para a filha o visitar aos fins-de-semana terá de comprar um cartão. "Prefiro descer a Avenida e ir ter com ela lá abaixo", diz. Anabela Teixeira, dona de uma pequena papelaria na zona de São João da Praça, tinha um acordo com a Emel: todos os anos enviava um fax para que autorizassem a entrada do carro - em nome do marido. Porém, este ano a resposta foi diferente: teria de passar a pagar os 25 euros do cartão de visitante porque, apesar de a loja estar em seu nome, o carro não está. Para Anabela isso nem é a maior dor de cabeça: "Desde que o trânsito está condicionado vendo metade dos jornais." A queixa é comum a todos os comerciantes, que até já improvisaram cartazes a dizer "A EMEL está a matar Alfama".
Os dois filhos pequenos de Isabel Saldanha, de 31 anos, já nasceram em Alfama. É neste bairro que vive, desde 2005, esta funcionária da Gebalis (empresa gestora dos bairros municipais de Lisboa), numa casa grande, toda remodelada, com vista sobre o rio. Nascida e criada em Paço de Arcos, no meio de vivendas e junto ao mar, Isabel escolheu Alfama porque queria viver numa aldeia dentro de Lisboa. "Não gosto de me sentir sozinha na cidade, fechada num condomínio, sem conhecer ninguém à volta." O marido, engenheiro, preferia uma casa em Campo de Ourique ou na Lapa, mas Isabel queria algo menos sofisticado. Queria "um diamante por lapidar".

No bairro típico do fado e dos santos populares, as gerações de peixeiras, pescadores e estivadores, originárias da Pampilhosa da Serra e de Ovar, já não vivem sozinhos nas vielas e nos becos apertados. Actualmente, entre 25 e 30 por cento dos 5100 habitantes do bairro são novos moradores. Muitos deles são o espelho de um fenómeno a que, na década de 1960, se deu o nome de gentrificação - a substituição de moradores antigos por novos, nem sempre num processo suave, muitas vezes com custos sociais e económicos elevadíssimos. É o contrário da desertificação dos centros, é o repovoamento urbano feito com determinadas gerações de características diferentes - numerosas vezes, uma excelente oportunidade para a especulação imobiliária encher os bolsos, quando as políticas públicas dão rédea solta.
Em Lisboa, aponta o geógrafo João Seixas, autor de diversos estudos sobre a capital, a gentrificação não se resume aos bairros classicamente históricos. Ela alarga-se a outros, mais recentes, como Alvalade, Campo de Ourique, nas Avenidas Novas. O sociólogo Manuel Villaverde Cabralsublinha, por seu lado, que a gentrificação em Lisboa "não é muito significativa, talvez com excepção de Alfama e do Castelo".
Em Alfama, como noutros locais, esta realidade tem protagonistas muito concretos, que encaixam numa espécie de retrato-robô: gente que adiou a idade do casamento e dos filhos, profissionais liberais ou do sector terciário, cujas opções de carreira e de vida familiar são também fortemente ditados pelos estilos de vida. "São jovens solteiros, casais com filhos de classe média-alta, que viviam na periferia e querem morar no centro, muitos deles ligados às artes e à cultura", explica Filipe Pontes, presidente da Junta de Freguesia da Sé que, juntamente com a de S. Miguel e de Santo Estêvão, delimitam o território ocupado por Alfama. Alguns dos recém-chegados ajudam a dar vida ao bairro. Abriram negócios, como ateliers de design, lojas gourmet ou de artesanato. E assim estancaram a sangria de população do bairro.
Segundo o último censo populacional (2001), Alfama tinha 5000 habitantes. Dez anos antes, eram mais de 7700. A população envelhecida foi desaparecendo naturalmente. Outros tiveram de abandonar as suas casas, no início do século, durante os projectos camarários de reabilitação. Nunca mais voltaram.
A especulação imobiliária não tardou e rapidamente os preços aumentaram. A pressão sobre os velhos residentes para "desimpedirem" prédios reabilitados intensificou-se. Os casos mais dramáticos acabaram em suicídio.
Entre os novos moradores, também houve quem se decepcionasse com os "falhanços" da recuperação urbana, com o condicionamento do trânsito ou com a falta de equipamentos de lazer e foram-se embora. Mas outros, como Frederico Carvalho, parecem estar para ficar. A morar em Alfama há quase três anos, este director de formação do Instituto de Medicina Tradicional, de 36 anos, ainda se lembra do dia em que foi conhecer uma casa que tinha visto na Internet. "Era um sábado de manhã, cheio de sol, e mal cheguei ao Largo de S. Miguel vi logo a vida matinal, com os putos a correr atrás da bola e as velhotas a contar as novidades da semana." Antes mesmo de ver a casa, já tinha decidido que queria morar ali.
Os amigos estão sempre a pedir-lhe para os avisar quando souber de casas para arrendar. Um deles, Daniel Aboim, um advogado de 31 anos, deixou Odivelas em Janeiro. Foi a tímida vista de rio do seu pequeno apartamento junto à Estação de Santa Apolónia que o conquistou.

in Público

Igreja de São Miguel

Largo do chafariz de Dentro

Moradores revoltados com avarias e abusos

"Júlio Santos mora há três anos na Costa do Castelo. Talvez pareça pouco tempo, mas é tempo mais do que suficiente para que, enquanto fuma um cigarro à janela da sua casa, consiga apontar um a um quais são os carros estacionados que não pertencem a moradores da rua que integra a zona de acesso condicionado do Castelo.

A culpa é da Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL), cujos funcionários "deixam passar pessoas que não são de cá", queixa-se este residente que, para evitar perder tempo à procura de lugar, opta por deixar o seu automóvel no local de trabalho. "Ao fim-de-semana põem o pino no automático e qualquer carro chega aqui e entra", diz apontando para o posto de controlo instalado ao fundo da sua rua.
A EMEL admite, em respostas escritas enviadas ao Cidades, que até aqui "era concedida uma grande discricionariedade aos operadores do sistema, o que muitas vezes provocava atritos com os utentes". Tentando acabar com o problema, a empresa introduziu recentemente o cartão Viva Viagem Bairros Históricos, "um meio de acesso que evita o contacto com o operador". O cartão é recarregável e custa 25 euros, sendo-lhe descontado um determinado valor sempre que o seu utilizador deixa o carro parado no interior de um bairro histórico por mais do que meia hora.
Uma solução que de nada servirá para acabar com um outro problema de que se queixam outros moradores, especialmente de Alfama, segundo quem os pilaretes nas entradas e saídas do bairro estão frequentemente em baixo, permitindo o livre acesso a áreas supostamente condicionadas. "Há uma série de semanas que a entrada na Rua do Barão está escancarada e, nas raras ocasiões em que isso não acontece, assim que um carro se aproxima o pilarete baixa imediatamente mesmo que não se tenha identificador", acusa um residente que pediu para não ser identificado e que está de malas feitas para abandonar o bairro, devido à carência de estacionamento e aos constantes assaltos às suas viaturas.
Na quarta-feira passada tanto essa entrada como a da Calçada de S. Vicente estavam abertas para quem quisesse entrar, acontecendo o mesmo com a saída da Rua Cruzes da Sé, na qual vários moradores garantem que é comum ver carros a circular em marcha-atrás para aceder ao bairro. Uma situação que contribui para a notória falta de lugares de estacionamento no interior da zona condicionada de Alfama, que é também agravada pela profusão na via pública de andaimes ferrugentos que amparam edifícios esventrados.
Para atenuar essa realidade, a EMEL oferece avenças mensais nos parques das Portas do Sol (por 50 euros para 24 horas) e da Calçada do Combro (por 78,2 euros para 24 horas), mas o parque que serve o Bairro Alto e a Bica não tem neste momento avenças disponíveis, existindo uma lista de espera.
A empresa admitiu também que, como contestam alguns moradores e presidentes de juntas de freguesia, algumas das cedências de lugares acordadas com terceiros quando o acesso aos bairros foi condicionado deixaram de existir, por exemplo com o Patriarcado de Lisboa e a Escola Superior de Dança.
Apesar destas deficiências, Eduardo Balsa, residente que integra a Associação do Património e da População de Alfama, encontra vantagens no sistema introduzido há quase sete anos. "Antes isto estava cheio de carros até ao tutano. Não se conseguia andar sem tropeçar num carro", lembra, constatando que agora até "há mais crianças a brincar na rua".


In Público

Mais de metade dos edifícios de Santo Estevão tem entre 65 e 90 anos

Segundo os mesmos dados, a freguesia de Santo Estevão tem cerca de 360 edifícios, mais de 200 dos quais foram construídos entre 1920 e 1945. Há ainda mais de uma centena de edifícios desta freguesia anteriores a 1919.
A maior parte destes edifícios são propriedade particular, como aliás acontece com a maioria dos edifícios em mau e muito mau estado de conservação na cidade de Lisboa, assim como a maioria dos devolutos.
Naquela freguesia de Alfama, um em cada 10 edifícios estava muito degradado quando foi feito o levantamento do Censos 2001.
Lisboa tem cerca de 55 mil edifícios, na maioria propriedade particular (mais de 44 mil), e aquando do último Censos mais de 2700 estavam em muito mau estado de conservação.
Pelo cruzamento de dados já compilados pela autarquia percebe-se que as freguesias que agregam os edifícios mais antigos são as das zonas históricas. Por exemplo, mais de metade (58%) dos edifícos da freguesia de S. Mamede tem entre 65 e 90 anos e um em cada quatro edifícios de S. Vicente de Fora está degradado.
Há em S. Miguel, de acordo com os Censos 2001 - que não resulta de um levantamento feito por peritos em habitação -, mais de 30 por cento do edificado estava degradado. Os números recolhidos para a elaboração do PLH indicam que um em cada três edifícios (238 em 303) é anterior a 1919 e que só dois foram construídos depois de 1996.
Segundo declarações à Lusa no final do ano passado, o vereador do Urbanismo adiantou que, para conseguir que os proprietários recuperem os edifícos em mau estado de conservação, entre outras medidas, a Câmara de Lisboa estava a tentar negociar com o Governo pequenos acertos no novo regime da reabilitação urbana para dar à recuperação de edifícios isolados os mesmos benefícios fiscais previstos para as Áreas de Reabilitação Urbana (ARU).
"Nestes casos, que teriam via verde, os procedimentos eram agilizados e a câmara poderia emitir um certificado de 'edifício a reabilitar'. O proprietário reabilitava e teria os mesmos benefícios fiscais previstos para o caso das operações de reabilitação nas ARU, ao mesmo tempo que se comprometia a colocar um quarto das casas no mercado de arrendamento", explicou, na altura, Manuel Salgado.
Entre 1994 e 2008 a Câmara de Lisboa gastou mais de 24 milhões de euros em obras coercivas.
Os dados do PLH indicam ainda que a Câmara de Lisboa ajudou a recuperar mais de 2000 edifícios e mais de 13 mil fogos na última década, a maior parte no âmbito do programa de apoio à reabilitação RECRIA.
Nos últimos 10 anos foram recuperados 2218 edifícios e 13 859 fogos em Lisboa.

In Destak

Número de prédios devolutos em Alfama está por contabilizar

Um levantamento dos edifícios devolutos e parcialmente devolutos realizado em 2007 revela que há 33 edifícios devolutos na freguesia de Santo Estevão, que conta com cerca de 2050 eleitores. A presidente daquela junta avança que aquele levantamento estará desactualizado, não correspondendo à realidade actual. "Há prédios que aparecem como devolutos mas não estão devolutos. E há muitos também que, entretanto, foram recuperados", referiu Maria de Lurdes Pinheiro (CDU), adiantando que segundo o balanço teria a "freguesia sem ninguém".
O estudo refere apenas um prédio municipal na lista dos devolutos e parcialmente devolutos e a presidente da junta afirma haver mais.
O levantamento dos edifícios foi-lhe enviado pela vereadora da Habitação, Helena Roseta, em Dezembro para que a junta proceda à actualização do mesmo - um processo transversal às restantes juntas de freguesia da cidade.
Helena Roseta adiantou ao DN que o estudo foi realizado numa altura em que não estava no pelouro e que o objectivo é que agora haja uma actualização. Adiantou ainda que "em algumas freguesias está mais correcto do que noutras" pelas respostas de actualização já recebidas.

In Diário de Noticias

Alfama vai ganhar hotel - JN

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País - Moradores do Palácio Dona Rosa em Alfama retirados devido a risco de derrocada - RTP Noticias, Áudio

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Ladra Alternativa em Alfama


Vai-se realizar nos dias entre os dias 30 e 31 de Janeiro, das 10 Horas às 19 Horas, no Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, a 17º Feira da Ladra alternativa. Nesta feira pode-se encontrar o que vai sendo feito a nível de artesanato urbano. Poderá encontrar artigos de joalharia, pintura, roupa, bijutaria, acessórios para casa, etc.

Não perca. Vale mesmo a pena.

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