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Fado Patrimonio Imaterial da Humanidade

O fado é Património Imaterial da Humanidade segundo decisão hoje tomada durante o VI Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

O Presidente da República já se congratulou com esta notícia, considerando-a «motivo de orgulho para todos os portugueses».

«A partir deste momento, o fado é reconhecido como um Património de toda a Humanidade, um valor inestimável no presente e uma herança cultural importante para as gerações futuras», lê-se numa mensagem do chefe de Estado divulgada no «site» da Presidência da República.

Também o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, afirmou em comunicado que a distinção da UNESCO ao Fado dá aos portugueses «alegria [...] numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas».

Num comunicado enviado à Lusa, Francisco José Viegas diz que esta decisão irá «contribuir para que as atenções do mundo se voltem para um dos emblemas da nossa cultura e do nosso talento».

O antigo presidente da Câmara de Lisboa Pedro Santana Lopes lançou a ideia de candidatar o fado a Património Imaterial da Humanidade e escolheu os fadistas Mariza e Carlos do Carmo para embaixadores da candidatura.

A candidatura foi aprovada por unanimidade pela Câmara de Municipal de Lisboa no dia 12 de maio de 2010 e apresentada publicamente na Assembleia Municipal, no dia 01 de junho, tendo sido aclamada por todas as bancadas partidárias.

No dia 28 de junho de 2010, foi apresentada ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e formalizada junto da Comissão Nacional da UNESCO. Em Agosto desse ano, deu entrada na sede da organização, em Paris.

A candidatura portuguesa foi considerada como exemplar pelos peritos da UNESCO, tal como o Paraguai e Espanha.

Entrevista com Argentina Santos

Antes de receber a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa, Argentina Santos recorda desgarradas e histórias de família, fala dos poemas das ruelas de Alfama e das novas vozes do fado
Marcou a entrevista para a hora do chá e, à chegada do gravador e da máquina fotográfica, tinha bule e torradas prontas. "Os senhores vêm do jornal? Sentem-se, por favor, que já sei que isto não vai demorar cinco minutos." Argentina Santos, 86 anos, 62 de carreira, gere a casa de fados Parreirinha de Alfama e faz de cada resposta uma história curiosa de outros tempos. Não vale a pena falar do AVC que sofreu no ano passado nem de "gente que não interessa". O seu é um dos grandes nomes da história do fado e basta-lhe recordar poemas e desamores para se desfazer em lágrimas.
Vai ser homenageada esta semana, a segunda vez este ano.
Sim, mas a primeira foi muito ao de leve, passou despercebida. Sei que muita gente só me vai conhecer agora, mas eu já estou aqui [na casa de fados] há 62 anos. Mas não tenho vaidade. Nem nunca fui às rádios pedir para pôr um disco meu. Nada disso. Mas estou cá. Entrei aqui ainda não tinha 24 anos. E vou fazer 87.
Quando?
A 6 de Fevereiro.
Não tem vaidade. Mas tem orgulho?
Sim, isso sim. E fico em polvorosa quando ouço falar em mim. Numa destas noites estava a chegar a casa, ainda não eram duas da manhã, e ouvi o meu nome na rádio. Estavam a falar da festa. Fiquei... As lágrimas vieram-me logo aos olhos.
Quer isso dizer que olha para trás e fica satisfeita, conseguiu fazer o queria.
Isso nem eu nem ninguém. O mundo ainda estaria pior se toda a gente fizesse aquilo que quer. A gente só faz aquilo que pode, aquilo que nos deixam, e isso já é bom.
Deixaram-na fazer muita coisa?
Foi complicado... mas isso já passou.
Mas não desaparece.
Sim, é como o vinho, quando está bom ganha aquele resíduo. Essa parte não se bebe, o resto é que conta.
Ainda canta todos os dias?
Canto quando é preciso cantar, quando tenho público que gosta de fado. Agora se é público que gosta de marchas e palminhas, eu não sei fazer isso.
Quem vem à Parreirinha são os turistas ou são sobretudo portugueses?
Tenho de tudo um pouco. E os estrangeiros, a maioria, já sabe o que é fado e o que é bater palmas.
As palmas aborrecem-na?
Não, isso não me aborrece nada. As pessoas quando vêm de férias vêm para se divertir, não para um velório. Mas já tive de tomar atitudes. Em tempos fui cantar a uma igreja, a uma festa que costumam fazer para arranjar uns tostões. Estava a cantar e pediram-me a "Lágrima". Pois toda a gente sabe que a "Lágrima" é uma coisa com sentimento. E estavam duas senhoras a dançar. Eu disse "estou a gostar muito de ver aquelas pessoas dançar, quando elas acabarem eu canto".
O fado é, portanto, uma canção que requer disciplina.
O problema é que as pessoas vêm ouvir fado mas não sabem o que é fado. No fado tem de se tomar conta no que se canta. E um poeta faz coisas muito bonitas de uma só palavra. É como uma reza.
A religião é importante para si?
Sou muito religiosa, mas não espero que cantem por mim, peço é ajuda aos meus santinhos.
Não canta se o fado não lhe disser nada?
Não, tem de falar de mim, da minha vida, de alguma coisa que me esteja a acontecer. Mas não quero que toda a gente sinta assim o fado.
Porquê, se diz que é assim que tem de ser?
Porque seria uma tristeza. Para isso mais valia ficar em casa. Mas quem não gosta não estraga.
Qual é o seu fado favorito?
Um poema à minha mãe, do Augusto Martins. Foi ele que fez e que me ofereceu. Chama-se "Duas Santas".
Mas também há fados alegres.
Sim, mas é preciso ver a letra e saber se podemos cantá-la ou não. Eu não posso cantar uma coisa à minha mãe, que já morreu há tantos anos, e rir-me à gargalhada. Se o fizer sou parva. A minha mãe, tenho que a cantar com sentimento. Porque é quando os nossos não existem que a gente se lembra mais deles. Claro que depois há gente que bate palmas a tudo. Essas pessoas vêm ao fado por vaidade, não é porque gostam. Não estão a sentir nada. Mas esta é uma conversa que não tem nada a ver com a minha homenagem.
E na sua opinião o que a destaca de outros fadistas para ser homenageada?
Isso eles é que sabem. Eu não pedi nada a ninguém. Se o fazem é porque tenho sido uma pessoa honesta, fiel aos meus pertences. Quem está ligada a uma casa e aos seus empregados há 62 anos merece qualquer coisa.
Antes de trabalhar na Parreirinha o que é que fazia?
O que calhava. Levantava-me às quatro da manhã, ia descarregar barcos de peixe. Ou ia vender, fruta, hortaliça, peixe, o que havia. Até podia ter vendido chumbo, mas não calhou. Um dia não tinha que comer fui carregar umas sacas e deram-me sete tostões.
Isso representava o quê?
Olhe, ia-se a uma casa de pasto e comia--se uma sopinha. Quando me vi com aquele dinheiro nem acreditei.
A sua família vivia com dificuldades.
Vivíamos muito mal. O meu pai não morreu, matou-se, tinha eu dois anos. A minha mãe ficou com quatro filhos. Eu fiquei entregue à minha madrinha. Mas não queria que ninguém passasse fome. Ia para a Ribeira arranjar carapaus e sardinhas e levava para casa. À noite íamos para o Limoeiro. Conforme davam comida aos presos davam-nos a nós. Quando não chegava para todos, ia numa carroça para as Mónicas, para as presas.
Mas quando chegou ao restaurante já tinha uma vida diferente?
Sim, morava na minha casa nas escadinhas da Bica, onde estive dos 16 aos 37. Mas fazia sempre a vida em Alfama.
E foi em Alfama que começou no fado?
O fado apareceu porque tinha ligação com um senhor que foi quem tomou esta casa. Eu tinha jeito para cantar e comecei numa desgarrada. Nessa altura nem se cantava à viola, era só à guitarra e ao piano. E os clientes pediram-me para continuar a cantar. Quinze anos depois esse senhor morreu. Para ficar por aqui teve a casa de ser comprada. Ele não era meu marido, era casado com outra pessoa, não podia ser comigo. Era um companheiro.
Começou a tomar conta da cozinha.
É uma coisa que gosto muito de fazer. Não sei se gosto mais de cantar se de cozinhar. Mas gosto é de improvisar, não me mandem cozer batatas com bacalhau.
E hoje, continua pela cozinha?
Sim, e ensino muito bem. Eu é que tomo conta disto tudo. Escolho e compro, digo como se faz e não se faz... Ensino. Porque se vierem aqui e não comerem bem... Para gastar dinheiro é em qualquer lado.
Tudo isto aconteceu quando?
Em 1963, um ano antes de fazer asneira.
Asneira como?
Casei-me. Não correu muito bem. Ao fim de cinco anos o meu marido ficou numa cama, com uma trombose. E não era pêra doce, era uma pessoa complicada. São chatices que nós arranjamos.
E entre as chatices onde estava o fado?
Nos espectáculos. Fazia muitos, sobretudo lá fora. E agora não tenho feito mais porque não tenho vida para isso. Mas vêm aqui ao restaurante perguntar por mim.
Quem é que canta na Parreirinha? Chegam aqui fadistas e dizem-lhe "olhe, quero cantar aqui"?
Não, fado vadio não é aqui, é nas lojas dos 300, há muitas por aí. Aí canta quem calha. Não canta o almeida que anda a limpar às ruas porque não calha.
Os fadistas de hoje são diferentes dos que conheceu há 40, 50 anos?
Acho que hoje vão rezar muitos padre- -nossos ao pé da senhora dona Amália. Porque foi ela que deixou cá a herança. Deixou cá coisas bonitas para elas estragarem. Mas há coisas que nunca mudam. Isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda. Só depois os outros. Raro é aquele que pensa "Deus queira que na tua vez te batam palmas assim".
Mas há quem cante muito bem.
Claro que há. E com uma coisa a favor: eles têm repertório, como as coisas da dona Amália, uma mestra, uma pérola que caiu do Céu. Pena é que muitas vezes não sintam nada do que estão a dizer. Mas como é bonito ainda levam palmas. Só que as palmas não são para elas, são para quem fez o fado, para os outros que o cantaram.
Era mais próxima de algum fadista em particular?
Conheci muitos, dei-me com toda a gente. Mas o que as pessoas eram a cantar podiam não ser em casa. A Amália era uma artista, mas eu não frequentava a casa dela. Mas como artista, para mim, é a maior. Hoje há gente a cantar bem, tão bem que se fossem do tempo dela ela não tinha ido tão longe. Além de cantar bem, não foi ela que se pôs lá em cima, puseram-na.
Carlos do Carmo diz que a Argentina é a última representante da geração de ouro do fado...
Isso depende do gosto. Mas sempre fiz as coisas à minha maneira, deve haver alguém que goste. E não é fácil gostar porque sempre fiz tudo à minha maneira. Se me dissessem que estava a cantar mal dizia logo "então cante você". Mas quando eu comecei a cantar ainda o Carlos do Carmo era um menino.
É um dos seus maiores fãs.
Sempre gostei muito daquele menino, era muito esperto. Vinha aqui ter com a mãe, de calçãozinho. Tinha ele 14 anos e ouvi-o a falar com o pai, até fiquei espantada. O pai queria comprar uma casa ao lado do Faia. E o miúdo dizia "não te metas nisso, já tens a outra casa para te dar dores de cabeça". Estava eu numa mesa perto da deles na Feira Popular. Fiquei com uma coisa por ele que não sei explicar, como se fosse meu filho.
E ele não se cansa de a elogiar...
É. Canso-me mais eu, mas não é dele nem de cantar.
Cansa-se de quê?
Não me canso de cantar, mas canso-me disto, de tomar conta da casa. É até um dia.
 
In Jornal I

O Fado por Paulo A. E. Borges

Há experiências que nos deixam a braços com o lado desconhecido, secreto e autêntico da vida. O Fado é uma delas. Só o compreende quem, mais do que o ouvir, já o escutou ou cantou, num dos poucos templos do seu culto autêntico. Do arrebatamento perfilado, contido e hierático do(a) fadista ao trinar da guitarra e às almas que, silenciosas de olhos cerrados na penumbra, partem num arrepio da medula ao encontro da Saudade, é um mesmo rasgo das trevas da banalidade. E fica a Voz, uma voz dorida que sai das entranhas como a flama de um lume que a tudo consome. Paixão pura, gratuita, sem outro fim senão o de arder, tanto maior quanto mais se oferta : "dom sagrado".
Dos becos e vielas do coração obscuro de Lisboa ou dos salões da aristocracia castiça uma mesma Voz se ergue, quando o crepúsculo reabsorve na treva as femininas formas da cidade branca e rosa. O vento, que outrora engravidava as éguas no Monte Santo, vem agora dedilhar as cordas de uma guitarra portuguesa. O Tejo empresta a frescura e o ritmo das suas vagas. E as ninfas, sereias e tritões tomam forma humana, vestem-se de negro, à luz da Lua, para ficarem mais nús, mais íntimos à Noite absoluta. Então as Musas, as camonianas Musas, sopram : a celebração começa.
Embalada pelas velas pandas da Viagem e pela ressaca das marés da história, pelo espírito trovadoresco luso-árabe e pela mornidão coleante do lundum afro-brasileiro, essa Voz que a prumo se ergue, redimindo Céu e Terra da cisão originária, é Portugal. Portugal e sua remota matriz, atlante e estrímnica, serpentina e lusitana, no fim de um ciclo, no entardecer do mundo. Com a embriaguez, de ideal ou - quando em desespero - de vinho, a gastronomia chamanista, a poesia devocional, épica ou lírico-panteísta, o sebastianismo, a pega de caras, o barroco, a bizarria, o sonho realizador do impossível, a loucura e a Saudade, o Fado é um dos Arrebatamentos pelos quais vamos resistindo à coca-cola, à "fast food", ao aburguesamento da cultura, à intelectualização do sentimento religioso, à epidemia mediático-publicitária, ao imperialismo do imaginário anglo-saxónico e à destruição das almas e do planeta pelo consumismo e pela barbárie tecno-buro-plutocrática.
No Fado o trágico perdura. A irracional cisão entre o indivíduo e o Absoluto, que faz com que relativamente haja Destino, Fatum - a impessoal Moira que os gregos sabiam superior aos próprios
deuses - , desafia todo o dogma religioso e as derivadas metafísicas. Por isso os portugueses a cantam, na saturnina ironia de quem contempla como vãos todos os artifícios da razão. Sabem, sem jamais terem pensado nisso, que só a dor, a extrema dor da identificação com o mal do mundo, dele nos liberta. Assumido e celebrado até à exaustão, em corpo e alma e espírito, em corpo-alma-espírito, o sofrimento transmuta-se em Alegria, a única não fictícia. Cátharsis, uma cátharsis praticada na vida quotidiana duma população, rito dum mito esquecido ou desnecessário. E tantos intelectuais que, em sua ignorância de cátedra, a julgam sepulta no teatro grego ou na Poética aristotélica...
Entre o esconjuro ou expiação do mal de existir - essa primordial injustiça da separação entre o indivíduo e a Plenitude que faz de cada nascimento uma morte e vice-versa - , a revolta contra os deuses e o destino e a aceitação resignada duma "sorte" dada por Deus, o Fado é afinal um paradoxal misto de sabedoria e ignorância ou esquecimento. Esquecimento de que a Vida - sob pena de absurdo radical ou infernal delírio divino - é metamorfose onde tudo o que a cada um acontece só pode ser por si gerado e merecido, fruto de acções livres na sua origem mas com efeitos necessários, em função da sua intencionalidade, da sua intensidade e das suas circunstâncias. O que torna possível a conversão do destino em destinação, ou a Libertação plena de todas as inevitáveis limitações existenciais, nada compatível com a anestesia, o suicídio lento e o langor do deleite num sofrimento não emancipador. Assim, aos versos do conhecido "Fado é Sorte", de Jaime Mendes - "Bem pensado/ Todos temos nosso fado/ E quem nasce mal fadado/ Melhor fado não terá // Fado é sorte/ E do berço até à morte/ Ninguém foge por mais forte/ Ao destino que Deus dá" -, bem responderia Bocage : "Não forçam corações as divindades: / Fado amigo não há, nem fado escuro;/ Fados são as paixões, são as vontades".
Decerto que Portugal é muito dessa melancolia que Aristóteles, no célebre Problema XXX, considera inerente a todo o génio ou homem de excepção, relacionando-a com a loucura, a propensão para a poesia, o vinho e o erotismo. Se a isto juntarmos o gosto pelos cavalos e pelos touros, e a indispensável guitarra, teremos, substituindo melancolia por Saudade - de âmbito semântico mais rico, e com uma abertura para a "salvação" que aquele termo grego não contempla - , um quadro perfeito da boémia fadista. E talvez o "fado vadio", cantado por quem passa, nas tascas - por exemplo na agora fechada Mascote da Atalaia, a cujas obscuras divindades tanto se deve do que aqui nos inspira - e nas ruas, nas peregrinações dentro ou fora de portas, outrora em seges e tipóias, seja ainda uma das últimas expressões de uma vida aventureira, nómada e itinerante, naturalmente marginal à existência domesticada, que o excesso de civilização, reprimindo, em vez de suprimir agudiza, polarizando-a em formas hoje cada vez mais violentas e perversas. Longínquos herdeiros dos grupos medievais de foliões, mistos de clérigos, estudantes e cantadeiras, trovadores, jograis e histriões, numa era em que, apesar da incompreensão eclesiástica, ainda se cantava e bailava nas igrejas, procissões e cemitérios ( Carolina Michäelis de Vasconcelos mostra a pujança destas práticas na cultura galaico-portuguesa ), e um século antes da juventude anglo-
saxónica produzir os seus "rebeldes sem causa", convergindo no apocalíptico "No Future" da era "punk" e em todos os pós-niilismos contemporâneos, Lisboa encontrou, na santa aliança do rufia, do fidalgo excêntrico e da prostituta, e ao som do Fado, a mesma denúncia, sem alternativa, dos valores e do progresso sem valor da cultura e da sociedade burguesas. Dançando, ou "batendo o fado", de modo tão licencioso que logo atraiu censura e repressão, a "fadistagem fixe" opôs, em plena era industrial e urbana, o sentido arcaico da festa, do potlatch e do excesso, ou seja, do sagrado lúdico ( não institucional e meta-religioso ), à ascendente moralidade produtiva, mercantil e puritana. Com a cumplicidade de uma aristocracia fiel aos valores da generosidade, do dom, da terra, do ócio e da desmesura aventureira, desdenhosa do novo-riquismo racionalista e laborioso, a tradição portuguesa polarizou uma fonte de subversão da nova ordem dos "parvenus" auto-designados como respeitáveis, embrião dos homens cinzentos que hoje gerem a agonia do mundo.
Provém porventura desse contraste, entre o Infinito que na alma há e o pouco que dele ela e o mundo humano suportam, sempre que mais empenhados no domínio mental, político ou técnico-económico do universo, o pronunciado sentido elegíaco e triste da alma portuguesa e a resignação ante a desgraça do "povo de suicidas" ( Unamuno ) que Pascoaes disse sê-lo "por amor a Deus". Entristecimento saudoso, sentido de que o que mais importa só se presentifica na sua ausência, visão de que o "agora" só o é por decadência dum intemporal "outrora", já o encontramos nas trovas dos Cancioneiros, nas meditações da dinastia de Avis e na denúncia de Gil Vicente - na primeira pessoa, ante D.João III, o introdutor da Inquisição - da permuta do espírito folgazão pelos lamentos veterotestamentários de Jeremias : "Em Portugal vi eu já / em cada casa pandeiro, / e gaita em cada palheiro ; / e de vinte anos acá / não há i gaita nem gaiteiro. / A cada porta um terreiro, / cada aldeia dez folias, / cada casa atabaqueiro; / e agora Jeremias / é nosso tamborileiro " ( Tragicomédia do Inverno e Verão ).
Mas o espírito dionisíaco persistiu na música, e particularmente na popular ( como o viu Nietzsche ), onde menos impera a separação entre actores e espectadores e o canto e dança, em comum, ou o silêncio ritual, preservam a comunhão num mesmo Corpo Místico. Procedente da arcaica religiosidade cósmica, matriarcal e pré-olímpica, no Ocidente, ou pré-védica, no Oriente - em ambos os casos pré-ariana - , por cuja recusa e dissimulada integração as grandes religiões planetárias se constituíram, o dionisismo dos cultos mistéricos e iniciáticos encontrou entre nós a adequada celebração das Grandes Mães, dispensadoras da Vida e da Morte e, sobretudo, do Canto que arrebata a alma para além da sua coincidência. A Severa e Amália são, com todas as diferenças, e decerto mais do que no seu perfil psico-biográfico, essa viva instância mítica do Eterno Feminino que, na genial visão de Pascoaes, é a "Virgem da Saudade", a qual, uma vez fecundada pelo herói da Demanda que todos somos, não pode senão parir-nos um novo Deus-Homem, Mestre-Rei num universo transfigurado.
Então a Saudade, íntima união e complementaridade de contrários, se remirá do seu divórcio, pelo qual em Portugal ficaram a memória, a tristeza, o Fado, emigrando para o Brasil o desejo, a
esperança, a alegria, o Carnaval... Então Portugal se desencantará e, descoberto o Embuçado, haverá beija-mão Real, com o João Ferreira Rosa a cantar o Fado do Fado Vencido. Acompanhá-lo-ão as dez mil guitarras de Alcácer-Quibir, dedilhadas por todos os Nautas da Aventura, culminando em Ressurreição o "morrer devagar" de quatro séculos de interminável agonia. Afinal apenas um mau sonho, mágica ilusão dissipada pela esplendorosa Luz da barra do Tejo.


"A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado:
Mas vendo no meu génio o meu destino,
Que havia de fazer ? Cedi ao fado"
- Bocage

Argentina Santos vitima de um AVC



A fadista encontrava-se no sábado na sua Casa de Fados, A Parreirinha de Alfama, quando desmaiou e entrou em coma.
"Apanhámos um grande susto, mas já passou." Foi nestes termos que Carlos do Carmo se referiu ao AVC que terá estado na origem do desmaio seguido do coma de que foi vítima a fadista Argentina Santos, de 83 anos, anteontem à noite, e que obrigou ao seu internamento no Hospital de São José, em Lisboa.
A fadista encontrava-se no sábado na sua Casa de Fados, A Parreirinha de Alfama, quando desmaiou e entrou em coma. Foi conduzida rapidamente para o Hospital de São José, onde, segundo Carlos do Carmo, "foi muito bem tratada". Ontem à tarde acordou: "Foi como se tivesse acordado de um sono profundo e ainda bem. Ela é a minha menina."

Argentina Santos, considerada uma das últimas divas do fado castiço, nasceu no bairro da Mouraria, onde tem uma rua com o seu nome.

Ao contrário da maioria dos fadistas começou a cantar tarde, aos 24 anos, no restaurante que abriu em 1950, A Parreirinha de Alfama. Com os anos, e graças aos dotes vocais da fadista mas também aos culinários, a Parreirinha tornou-se um espaço de referência do fado mais tradicional.

Desde que gravou o seu primeiro disco, em 1960, Argentina Santos tem tido uma carreira cheia de êxitos, entre os quais os inesquecíveis ‘Duas Santas’ e ‘Juras’.

Realizou várias tournées internacionais e é patrona da Academia do Fado em Racanati, Itália, que inaugurou. Em 2005 foi galardoada com o Prémio Amália Rodrigues, que consagra a sua carreira.

Fonte hospitalar confirmou que Argentina Santos estava a recuperar bem, mas recusou adiantar mais pormenores. A sua saída do hospital irá agora depender "de decisão médica". Ontem, A Parreirinha de Alfama esteve fechada.


in Portal do fado

Alfama recebe animação de rua para todos os gostos

O Largo de São Miguel, em Alfama, recebe amanhã a 1ª edição de Artes Performativas de Rua. Vai haver fado, guitarradas, músicas do mundo, pintura de murais... boa sangria e petiscos típicos. A entrada é grátis.
Fado vadio, guitarradas, percussões soltas com sons de todo o mundo, pinturas de murais, e outras artes de rua... tudo acompanhado por petiscos típicos de Portugal. A 1ª edição de Artes Performativas em Alfama vai acontecer hoje, 28 de Agosto de 2009, com entrada livre.
A ideia partiu de Frederico Carvalho, morador e fã confesso do bairro: "Estava à conversa com amigos sobre eventos que começaram do nada e que se tornaram tradição, como é o caso da Tomatina , em Espanha. Porque não fazer algo que também dinamize Alfama?".
A ideia pegou e, com divulgação boca-a-boca, chegaram propostas dos mais diversos artistas anónimos. "Desde fadistas a instrumentistas de música do mundo, como a cuíca, o charango, o bandolim, o santur iraniano, o darbuka, o didgeridoo e ainda o clarinete ou o saxofone... Há muita gente a querer participar".
O evento, que terá periodicidade mensal, decorrerá sempre na última sexta-feira de cada mês, pelas 21h00. Enquanto o calor durar, o Largo de São Miguel é o local eleito para receber a festa. Quando chegar a chuva e o frio a iniciativa passa para as instalações da Associação Recreativa "O Adicense", um dos marcos daquele que é um dos mais típicos bairros de Lisboa.

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