Alfama

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ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada


O ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada) é a instituição de ensino superior existente em Alfama que se insere no bairro desde 1962, como Instituto de Ciências Pedagógicas, tendo a actual designação desde 1964.

O ISPA está completamente inserido no bairro, quer a nível pedagógico, quer a nível cultural, quer a nível de relações inter-institucional.

O ISPA é uma instituição, para além do ensino, com actividades editoriais, culturais e com uma livraria, aberta a todos, com livros de psicologia, entre outros.

O ISPA é um exemplo de uma instituição aberta para o bairro onde se insere e que pretende fazer parte da população do bairro. São este exemplos que devem ser transmitidos ao bairro e à cidade. Acresce que o facto de estar inserido no bairro, provoca que muitos alunos queiram ficar perto da escola, procurem casa, se estabeleçam e possam conduzir para uma renovação do mesmo e, ao mesmo tempo a um acréscimo de escolaridade da população. Esta ultima situação era mais notada no passado, mas que ainda continua a ter as suas marcas e coloca uma etiqueta em Alfama. O ISPA é, e pode continuar a ser, uma bandeira para o bairro, o demonstrar que o bairro se está a modernizar, que é procurado por pessoas mais jovens e de maior nível de instrução.

É no rejuvenescer da população que o bairro tem o seu futuro. É no local de primeira habitação de jovens, a preços controlados, que o bairro pode ter o seu papel. É na relação com instituições existentes como o ISPA e a a Fundação Espírito Santo (esta mais virada para dentro e não tanto inserida no bairro), que o bairro pode crescer a nível cultural, nunca desprezando, mas protegendo, a cultura ancestral do bairro.

Comunicação Oral


Grande parte da comunicação em Alfama faz-se de modo oral. Tudo se sabe e é divulgado de modo oral. Muitas vezes parece que não existe, neste bairro, novas tecnologias.

Tudo o que se passa, no bairro, não é segredo e podem os mais defensores da privacidade desistir pois nada no bairro se consegue esconder. Exemplo disso foi algo que se passou na ultima semana.

Eu tive uma doença, que já está a ser curada - A Zona - que me obrigou a ficar de cama uns dias. Ao visitar os meus pais, estacionei o carro na rua da alfandega e tive de andar cerca de 80 metros até chegar ao pé deles. Nesses pequenos metros fui confrontado com quatro pessoas que já sabiam da minha doença e que tinham a forma ideal para a sua cura. Parecia que tinham informado no telejornal, e logo na noticia de abertura, que eu tinha esta doença.

Claro que também recebi, por quatro vezes, a noticia que a D. Júlia tinha falecido.

Existe como que um jornal oral que vai divulgando as noticias do bairro.E a velocidade de distribuição da noticia varia em função da gravidade, novidade e espectacularidade da mesma.

Para pessoas que, nos dias de hoje, não conhecem os restantes condóminos dos prédio onde moram à vários anos é algo impensável. A nossa sociedade veio criar um novo ser das cidades, egocêntrico, egoísta e muito defensor da sua vida pessoal, como que um forte onde só entra quem ele quer.

Esse ser ainda não nasceu em Alfama e os que entram ou mudam ou desistem e saem deste bairro.

No sentido positivo, tal situação vem demonstrar que, como numa família, todos sabem a história e as estórias de todos, mas estão sempre lá para ajudar.

Paixão (III)

Sendo um bairro tão característico tais individualidades do bairro são visíveis durante os meses quentes e pelo frio são mais dificilmente detectáveis no verão.
Mas finalmente chegou o verão.
No verão as ruas do bairro fervilham de vida. As casas passam a ser moradas para comer e para dormir e as ruas como grandes salas de estar. Como se o bairro fosse uma grande casa, como dizia Ary dos Santos, “um casa sem janelas”. Muitas vezes as pessoas de pisos superiores como não pretendem sair e ter de descer as escadas ficam a janela ou nas pequenas varandas. E era nessa sua varanda que a Carla passava grande parte do tempo. Ela adorava ler e de estar sentada de costas viradas para a rua. Na realidade de costas viradas para o bairro. Como se ele não fosse importante para ela. Vivia fechada no seu mundo onde tudo o resto fosse supérfluo. Nunca ele iria perceber mas é esse o espírito reinante em Alfama. O individualismo, considerando tudo o resto supérfluo. Com uma pequena diferença. O bairro considerava isso não para os seus habitantes mas para os visitantes, considerava supérfluo o resto que não fosse de Alfama. Era apenas um pormenor, mas aquele anjo tinha o espírito de Alfama.
Mas o facto de a ver permitia-me ser um pouco mais feliz e fazia-me ganhar coragem para pedir para ela descer. Certo dia, estava a Carla na varanda e a D. Manuela na janela das escadas com a vizinha do lado. Pensei – Porque não?
- D. Manuela a Carla pode descer?
- Pode, se ela quiser.
Vi um pequeno sorriso na cara da Carla.
- Mas vou descer para quê? - Perguntou a Carla.
-É difícil falar com alguém que está a dois andares a cima. Anda, podemos ir dar uma volta ao bairro.
- Eu conheço o bairro. Não me perco - Respondeu a Carla. Mas apesar da resposta negativa vi um leve esgar no seu rosto a solicitar que eu insistisse. Na realidade, talvez não tenha visto nada pois eu sem óculos vejo mal à distância e nessa altura tinha a mania de não os usar para não parecer feio.
Após alguma insistência e tendo a D. Manuela do meu lado, a Carla desceu. Andámos a passear a tarde toda. Foi uma tarde perfeita, estava a passear em Alfama com a mais bonita mulher que alguma vez tinha visto e, desta vez, ela estava a passear comigo. Pois na minha imaginação já tinha feito aquele passeio com ela, Mas hoje é real.
Tornámo-nos bons amigos e para mim era a mulher da minha vida. Quase todos os dias nós estávamos juntos.
No entanto, ela nada sabia ou desconfiava da minha paixão. Parece que é verdade. Segundo o povo em questões de Amor o visado, neste caso a visada, é sempre a ultima a saber. Via-me como um amigo que podia ter num bairro completamente estranho. Eu sonhava no dia em que pela primeira vez ia dizer a alguém que gostava dela, que queria que fosse minha namorada. Em que pudesse terminar a minha historia amorosa com o famoso “e viveram felizes para sempre”.
Não era a primeira vez que eu gostava de uma rapariga, mas sempre fui muito cobarde e nunca tive coragem de dizer nada. Já tinha beijado raparigas, mas nunca nenhuma que eu gostasse realmente. Parecia difícil fazer com alguém de quem nós gostamos mesmo. Era mais fácil com as outras. Se não lhe ligavas muito ias mais descontraído. Não te preocupavas que algo corresse mal. E, por isso não corria mal. Mas agora era diferente. Eu estava apaixonado por ela. Eu pensava nela todos os minutos, eu respirava, comia e bebia-a nos meus pensamentos. Eu tinha de dizer o que sentia por ela e tinha de saber se ela sentia o mesmo por mim. E o pior é que ela podia dizer que sentia o mesmo por mim e ai vinha o grande problema. E se eu a beijasse mal? E se eu não fosse tão bom namorado como amigo? E se…
Era esse o meu problema. Mas eu estava cada vez mais apaixonado por ela.
Este sentimento aumentava exponencialmente cada dia que passava. Eu tinha de dizer o que passava na minha cabeça. E naquele dia não podia passar. As palavras tinham sido exaustivamente treinadas. Na minha cabeça fui alterando e melhorando o discurso. Ele não podia falhar. O discurso cuidadosamente aperfeiçoado, algumas vezes com palavras tiradas do dicionário, estava pronto.
Após ter ajudado o meu pai (ele tem um restaurante), esperava ouvir os passos da rapariga que eu queria para o resto da vida. Não conseguia ouvir, ou não desceu ou passou numa altura em que o barulho dentro do restaurante era tão grande que nem os meus apaixonados sentidos conseguiam ouvir. Nem das inúmeras vezes que vim à porta pelos supostos passo Vim à porta e olhei para a janela. Ela estava na janela das escadas. Eu decidi – Era agora:
- Olá !
- Olá, Helder.
- Posso falar contigo?
- Podemos falar daqui a um bocadinho.
- Tem de ser agora.
- OK, eu desço.
- Não, eu subo.
Achei que teria mais privacidade falar nas escadas do prédio do que nomeio da rua onde as paredes têm mais do que ouvidos. As ruas de Alfama não permitem que ninguém tenha uma conversa particular.
Subi as escadas num ápice e cheguei num instante ao pé do objecto da minha paixão.
- Entra Helder, para falarmos.
- Não, quero falar contigo aqui fora.
- Diz.
- Já nos conhecemos há algum tempo e desde que te vi pela primeira vez tenho um sentimento que com passar do tempo não desapareceu mas cresceu. Eu, desde o primeiro dia que te vi, gosto de ti. És uma mulher bonita e conhecer-te fez-me agradecer que o Zé Carlos tivesse sido atropelado. Não que ele merecesse, mas assim pude conhecer-te. E pude estar contigo e conhecer-te e ver que és a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida. E por isso gosto de ti e queria namorar contigo…
- Helder, eu gosto de ti como amigo. Se eu pudesse escolher, escolhia-te a ti. Mas no Amor não se escolhe. É o coração que escolhe. Por isso peço desculpa, mas não vou aceitar.
- Não faz mal – disse – mas eu tinha de dizer.
Desci as escadas. O meu plano tinha falhado redondamente. O texto que tinha criado não saiu. Nem uma palavra. Tudo aquilo porque tinha treinado foi-se no meio do nervosismo. E ela respondeu que não. O não que eu, no meio do meu medo, esperava mas que não queria.
No entanto, não estava chateado, mas contente. Não estava triste, mas feliz. Não estava desapontado mas satisfeito. Tinha dito a alguém que gostava o que sentia. Tinha colocado, mal, mas tinha colocado em palavras o que sentia. E a partir desse dia não precisava de disfarçar perante ela. Sentia-me pela primeira vez um homem. Tinha, pela primeira, vez algo que sempre me pareceu de adulto. Dizer a quem amamos que a amamos.

Paixão (II)

A imagem daquele anjo não me saia da cabeça. Adormecia a pensar nela e acorda com a imagem dela a abrir-me a porta.
Rapidamente comecei a reconhecer os seus paços quando descia as escadas, a sua voz no meio da rua. Mesmo a meio da manhã, no meio pregões das varinas, no barulho das crianças, eu sentia o seu andar, o seu respirar. Algumas vezes falhava, alguém conseguia imitar o andar dela, a sua voz, a sua maneira de descer as escadas. Mas noutras vezes acertava. E ela lá estava.
Ela costumava sair com a avó nas suas compras diárias. Alfama é um bairro muito único. Era normal as pessoas fazerem as compras para o próprio dia. Existiam talhos que abriam de terça a sábado às seis da manhã, fechavam às 16 horas.
Um dos mais conhecidos era o talho do Sr. António – Ti’António para mim. E ele nunca foi meu familiar. É apenas uma das formas de tratar as pessoas por quem tenho grande apreço e respeito. Assim, não se trata essas pessoas num distante “Senhor” ou “Senhora” mas num próximo Tio ou Tia. Dessa maneira quer o sujeito quer o destinatário sabia que aquela relação era especial.
Quanto ao peixe a variedade era imensa. Na rua de S. Pedro existiam, pelo menos 15 varinas que vendiam o seu peixe de terça a sábado. A Rua de S. Pedro era também denominada de Rua do Peixe. O cheiro do peixe tinha-se entranhado nas pedras da calçada. Apesar dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa lavarem a rua diariamente logo após as varinas encerrarem o seu negócio às 15 horas. Mas o bairro cheirava a peixe, o bairro cheirava a mar. Mas não digo isto como critica ou como sinal depreciativo. Foi o Mar, ou a baia calma, designação fenícia que originou a palavra Lisboa, que fez que o povo tenha escolhido Alfama para viver. Há sua frente tinha uma fonte de alimento e dentro do bairro tinha muitas nascentes de água. Assim, tínhamos tudo o que era preciso para um povo se sedentarizar. Não faltava água nem comida.
Saudades de algo que já não volta.
Era normal a D. Manuela vir à rua fazer as suas compras diárias, agora na companhia daquele anjo.
- Olá Carla, como estás?
- Bem e tu?
Depois vinha a conversa do tempo e ficava sem nada para falar. Na realidade eu não precisava de conversa. Só de a ter ao alcance da minha vista.
Dificilmente eu conseguia ter a Carla na rua. Era uma rapariga de casa, não gostava de estar na rua – Não era de Alfama, onde para nós a rua é mais uma assoalhada da casa.
É normal encontrar as portas das casas abertas. Tal situação é devido a uma razão sócio-arquitéctonica ou arquitectónico-sociológica. As casas em Alfama são muito pequenas e com pouca iluminação. Muitas vezes têm divisões interiores e apenas uma ou duas janelas. Deste modo é normal encontrarmos portas de entrada com janelas e portas abertas. Tal situação vem minorar as duas características dos imóveis em Alfama. Com a porta aberta entra mais iluminação natural para dentro de casa e, por outro lado têm-se a impressão que a casa é maior. Como se a casa se alargasse para a rua e para dentro da casa dos vizinho que têm igualmente a porta aberta.
Talvez por esta arquitectura, pelas pessoas ou pela história. Não podemos esquecer que a arquitectura é de origem árabe onde a introspecção familiar e social é rainha onde as casas são constituídas de acordo com a cultura muito particular. Existe em Alfama uma sociedade diferente do resto da cidade. Todas as pessoas do bairro se conhecem. As notícias correm muito depressa. E, por isso, existe entre os habitantes do bairro uma mistura de Amor e Ódio Familiar. As pessoas adoram-se, mas muitas vezes por questões sem a mínima importância, deixam de se falar, chegando a existir confrontos físicos.

Património e sociedade maltratada.

Alfama foi ao longo da sua vida um bairro com características muito especiais.
Foi, parte dela e nos primeiros tempos, a origem da actual cidade de Lisboa. Foi bairro de Reis, condes, Duques. foi morada do Chanceler-Mor. Foi o centro da nossa capital.
Mas com o aparecimentos dos coches, e essencialmente o crescimento dos mesmos, houve a necessidade de a classe alta passar para bairros feitos de raiz a pensar no novo meio de transporte.
Assim, Alfama passou a ser um bairro de pescadores, de varinas e da classe trabalhadora, ou se preferirem, da classe baixa.
Tudo isto veio como que colocar no esquecimento o bairro e a sua população. Em regra, a escolaridade do bairro nunca foi muito elevada, é bastante elevada as gravidezes juvenis, é um caso grave a droga no bairro. Já foi muito relevante os casos de HIV. Infelizmente, sou um homem relativamente jovem e já vi morrer às mãos dessa maldita doença companheiros de brincadeiras, que, enquanto crianças, nunca tiveram capacidade de sonhar o que seriam enquanto adultos.
Talvez por isso, e mais um milhar de razões, como o encerramento do Porto de Lisboa, da Alfandega, dos estivadores, do pescado, a não existência de alternativas de emprego para o bairro, a falta de formação profissional e de escolaridade, o congelamento das rendas durante décadas, e por isso a falta de protecção de um património que é de todos - Alfama foi-se degradando sociológica e patrimonialmente.
Por isso é necessário que se restaure o património, se dê formação à população do que é de todos e de cada um. Para termos orgulho e podermos mostrar Alfama como merece.
É verdade que o bairro já não está como nos anos oitenta do século passado mas ainda falta muito e, se possível, tenhamos como lema uma frase de 1969 - "Sejamos realistas e exijamos o impossível".
Alfama merece.

Alfama II

Conforme tinha dito noutro texto, Alfama não foi um bairro estrategicamente pensado, as casas foram sendo construídas de acordo com as necessidades e com o desnível do terreno.
Ao contrário do Bairro Alto, outro bairro histórico de Lisboa, que foi planeado com ruas paralelas e perpendiculares, Alfama cresceu e sobreviveu com base nas necessidades das pessoas. E, por isso, mantêm as suas características.
Já dizia o Poeta "Alfama é uma casa sem janelas" (Ary dos Santos). Alfama não é um bairro. se tomarem atenção, quando entrarem em Alfama entram numa casa, com muitas assoalhadas, e com prós e contras de todas as casas.
Como vantagens, toda as pessoas conhecem todas as outras em Alfama. Quando acontecer algum imprevisto irá ter sempre ajuda de um vizinho. O sentido de pertencer ao Bairro é maior em Alfama do que em qualquer outro local na cidade. Por isso vão ver muitas casas com as portas abertas em Alfama, por um lado, as casas são escuras e pequenas e por isso a porta aberta para entrar luz e a rua como extensão da casa, por outro lado, e como é normal na nossa casa, não fechamos a porta de uma assoalhada, costuma ficar aberta.
Como desvantagens temos o facto de que nada se passa na nossa vida que os outros não saibam. Não podemos fazer uma pequena festa em casa sem que no outro dia alguém, que pensamos que nunca tínhamos visto, nos venha dizer algo como "grande festa vizinho!"
Mas isto é mais uma das características de Alfama.
Mas não me achem saudosista eu gosto da arquitectura e da fisionomia das rua, mas detesto como grande parte das casas estão.
Gostar de Alfama não é gostar de ver os prédios a cair de existirem casas sem WC completo. Pois, é verdade, até ao século XVIII, pelo menos, as pessoas não tomavam banho em casa. Até os ricos com grandes palácios tinham a casa de banho separada. Lembrem-se que não existia rede de esgotos. Os ricos tinham a casa de banho separada com uma fossa por baixo, os pobres e classe média tinham uma pia. E para tomar banho iam aos balneários públicos. Estes ainda existem em Alfama, bem como os Lavadouros públicos.
na freguesia de Santo Estêvão temos um Balneário público na Calçadinha de Santo Estêvão, n.º19 e dois Lavadouros um na Rua dos Corvos e outro no Beco do Mexias.
Mas é preciso melhorar as habitações em Alfama.
É com pessoas novas que Alfama pode vencer o futuro. jovens que não se importam de ter uma casa pequena e de subir as escadas a pé. Mas é necessário que o preço das casas seja justo. E que não esteja inflacionado pelo facto de estar no centro da Cidade.
Uma casa em Alfama não pode estar sujeita à especulação imobiliária, pois assim, vemos cada vez mais casas para venda que não se compram devido ao valor que pedem por elas.
Saber que existe um T1 em Alfama de um prédio do SEC. XVIII, apesar de estar recuperado por 85.000€, quando eu posso comprar em Santa Maria dos Olivais um T1 de 1994 por 53.000€, vem afastar as pessoas de Alfama e não trás pessoas para proteger e desenvolver o Bairro.

Vidas de Alfama

Alfama, apesar de ser um bairro a preservar, tem alguns problemas que não podem ser descurados.
Desde logo, a toxicodependência, o alcoolismo, a gravidez juvenil, a falta de escolaridade dos habitantes, e , até há bem pouco tempo, a pequena criminalidade.
Começando pela parte boa, o facto de existir dois policias que andam de motorizada em Alfama, que andam por todos as ruas, becos e escadinhas e por falarem com os habitantes veio dar um certo ar de mais segurança. Que, na realidade já é verdade.
Fico contente por ver que o meu bairro está mais seguro, que poderá dar mais segurança a quem o visita, a quem vive nele, a quem o adora.
Por outro lado, a falta de escolaridade da população, especialmente a mais nova, veio trazer todos os outros problemas. O alcoolismo, a toxicodependência, a gravidez juvenil, no fim, o fado das habitantes de Alfama.
Penso, e penso não estar errado, que a grande solução de Alfama não passa só pela recuperação habitacional. Passa pela recuperação da população e pela sua maneira de pensar. É necessário que a população invista mais nela própria. Queira ser melhor do que é. Queira progredir. Só querendo melhor do que os nossos antepassados poderemos melhorar as nossas vidas.
E isto não é ofender os nossa ascendentes é dar-lhes orgulho. Eu quero que os meus filhos sejam melhores do que eu. Assim, melhorando a vida, olhando para ela de outro modo eu vejo o meu bairro de outro modo. Já não ponho grafite nas paredes, pinto-as; já não roubo os azulejas, protejo-os; já não ofendo os visitantes, sou simpático com eles, já não ofendo o meu bairro, divulgo-o.
Por muito que adore este bairro fico triste quando vejo que alguns dos meus companheiros de infância já morreram. Vitimas de uma promessa de vida fácil que provocou a sua morte por Sida.
Fico triste quando dou uma moeda por estacionar o meu carro a um amigo de infância que tinha o sonho de ser piloto e, de sonho em sonho, entrou no pesadelo da droga.
Fico triste quando vejo uma adolescente que conheço desde que nasceu, trocar o seu sonho por duas crianças indesejadas, que irão sofrer o resto da vida duas noites não pensadas.
Mas a esperança é a ultima a morrer. Todos juntos poderemos mudar as coisas. Uma de cada vez, e uma só longo prazo. devemos dar informação sobre as consequências da droga e de doenças sexualmente transmissíveis. Apesar de existir muitas campanhas de informação, nunca nenhuma será demais. Ter um local onde, discretamente a população se poderá dirigir e colocar as suas duvidas, sem que o resto da população possa veja os seus problemas.
E no fim, dar instrução para que, pelo menos a próxima geração não cometa os mesmos erros que a minha.

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