Alfama
Miradouro de Santa Luzia
Porto de Lisboa vs. Miguel Sousa Tavares e Terminal de Cruzeiro
| Estas são duas noticias do DN On line: Porto de Lisboa processa Miguel Sousa Tavares "A Administração do Porto de Lisboa (APL) anunciou ontem que deu entrada a uma queixa-crime contra o jornalista Miguel Sousa Tavares por "difamação". Em causa estão declarações de Sousa Tavares sobre o projecto da APL para o terminal de cruzeiros de Lisboa, que previa um edifício de 600 metros de comprimento junto ao rio. O jornalista classificou a Administração como sendo "um bando de malfeitores".Ontem, a APL emitiu uma nota em que visa esclarecer a polémica em torno do projecto para o terminal de cruzeiros, em que tem sido acusada de não ouvir a Câmara de Lisboa. Assim, a APL sublinha que manteve várias reuniões de trabalho sobre o terminal de cruzeiros, que recebe cerca de 200 mil passageiros por ano sendo o porto europeu com maior movimento, com "a equipa liderada por Maria José Nogueira Pinto, na vigência da anterior vereação". Além destas reuniões, a APL acrescenta que foram mantidas outras reuniões de trabalho com a Parque Expo.Quanto ao edifício do terminal de cruzeiros, a APL explica que o projecto que foi divulgado era "meramente, um estudo do que poderia vir a ser o terminal, o qual não foi objecto de qualquer aprovação". O Porto de Lisboa vai mais longe e "nega que exista um projecto de engenharia e/ou de arquitectura para o terminal de cruzeiros de Santa Apolónia". Apesar de já estarem em curso obras naquele local, é ainda referido que "está em curso, exclusivamente, a execução da obra marítima de consolidação da muralha".O projecto foi contestado pela Câmara Municipal de Lisboa, tendo levado mesmo a que fosse votada uma inédita moção conjunta do vereador José Sá Fernandes (BE) e do movimento Lisboa com Carmona, do ex-presidente da autarquia, Carmona Rodrigues. A moção foi aprovada apenas com a abstenção do PSD e visava "contestar junto do Governo e da APL a construção do edifício projectado" para Santa Apolónia.A APL vem agora afirmar que "por orientação expressa da tutela (Secretaria de Estado dos Transportes) o projecto para o terminal de cruzeiros deverá ser concretizado e desenvolvido em estreita coordenação com o Município de Lisboa." O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, já afirmou esta semana que o estudo apresentado "está morto e enterrado", garantindo que este não será construído.Foi o estudo de projecto revelado para aquela zona, que previa um edifício de 600 metros de comprimento e seis de altura, que motivou as críticas. Num debate promovido pelo Fórum Cidadania Lisboa e pela Associação do Património e da População de Alfama, a 28 de Setembro, Sousa Tavares disse que "ao contrário de pessoas que dizem que a APL tem coisas positivas, acho que é uma associação de malfeitores", acrescentando ainda que "é um inimigo público da cidade", pelas construções que autorizou. Presente no mesmo debate, o eventual próximo responsável pela frente ribeirinha, José Miguel Júdice, disse estar "numa espécie de limbo", já que não foi nomeado para qualquer cargo.Ao DN Miguel Sousa Tavares disse preferir não comentar o caso. O contacto com o vereador do Urbanismo na CML, Manuel Salgado, não foi possível até ao fecho desta edição." "Sociedade para frente do rio não terá poderes decisórios Moradores saúdam fim do projecto" "Sociedade para frente do rio não terá poderes decisórios A sociedade que irá promover a reabilitação da frente ribeirinha de Lisboa - que incluirá a Câmara e o Governo - não deverá ter poderes de licenciamento, afirmaram à Lusa vereadores da Oposição na Autarquia lisboeta. A informação foi anteontem transmitida aos vereadores por António Costa, presidente da CML, durante uma reunião extraordinária dedicada à frente ribeirinha. "Há o princípio, com o qual o presidente concorda, de que a empresa ou sociedade não tenha poderes de licenciamento, e nisto tem o apoio da vereação, o que lhe dá força para negociar com o Governo", disse a vereadora do movimento "Cidadãos por Lisboa" Helena Roseta, que já tinha manifestado a sua oposição à constituição de uma sociedade com as características da Parque Expo, que promoveu a Expo 98 e que tinha poderes de licenciamento. A vereadora, que tinha solicitado a reunião com o apoio dos restantes vereadores da Oposição, considerou que a sessão foi "extremamente útil", voltando a insistir na importância da discussão pública de qualquer projecto para a frente do Tejo. António Costa e o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado (PS), informaram igualmente os vereadores sobre o trabalho de delimitação das áreas sob jurisdição da Administração do Porto de Lisboa que não dizem respeito a actividades estritamente portuárias e que deverão passar para a soberania plena da Autarquia. "Tem de haver uma clara separação das águas e agora há condições políticas para tal", disse por sua vez Carmona Rodrigues, anterior presidente do Executivo", acrescentando que o facto de o PS estar no Governo e na Câmara "ajuda muito".O ex-presidente da CML manifestou-se, contudo, "preocupado" em relação a alguns projectos da APL, dos quais tomou conhecimento na reunião, designadamente o "aterro da Doca do Espanhol, a construção de uma plataforma no cais de Alcântara, em frente a Santos, e o aumento da capacidade dos contentores". Já o vereador do PCP Rúben de Carvalho considerou "um passo muito importante" que as áreas da APL sem natureza portuária passem para a tutela da CML.A Associação do Património e da População de Alfama (APPA) manifestou ontem o seu regozijo pelo anunciado abandono do projecto de terminal de cruzeiros em Santa Apolónia. "Tratava-se de um mau projecto, sem qualquer discussão pública, e que teria graves impactos em Alfama ao nível do acesso ao rio, de sistema de vistas, fluxos de tráfego e equipamentos sociais", sublinham os responsáveis, em comunicado. A associação volta a ainda a questionar "a oportunidade deste investimento". "Se se pretende reforçar a capacidade e o poder de atracção turística da cidade de Lisboa, não seria mais urgente investir no processo de reabilitação urbana dos bairros históricos", questiona a APPA que apela ao Governo, APL e à Câmara para que levem em conta os interesses e a vontade dos moradores em novos projectos que venham a apresentar para a zona ribeirinha." |
A Administração do Porto de Lisboa, apesar de ter sido convidada várias vezes par o debate, nada respondeu nem apareceu. Mas não gosta que as pessoas, que pretendem saber o que se vai construir na cidade, chateadas por serem desprezadas digam o que vai na alma.
Quanto ao resto, acho bem que os políticos liguem ao que o povo pensa. Já que é algo que a APL não se preocupa.
Alfama: artistas expõem carne em decomposição
«Isto é uma exposição? Ó meu Deus!», afirma Guilherme, merceeiro do bairro.
«Isto» é um cubo de acrílico que contém uma perna de carneiro a ser decomposta por larvas e varejeiras, com um copo de vidro com água ao lado, uma peça colocada à entrada da galeria e que pretende representar a vida e a morte.
«Life» (vida) é o tema da exposição, mas o visitante é também confrontado com o seu contrário, a morte.
«Flie» - que joga com as mesmas letras de «life» e tem, em inglês, o som da palavra «mosca» («fly») - representa esta antítese, materializada numa outra peça da exposição, um conjunto de quadros em que moscas mortas, coladas à tela, assumem protagonismo.
O jogo de palavras - «Life» e «Flie» - não é inocente.
«Nós, humanos, estamos sempre a matar as moscas. Elas representam a morte», explica um dos dois artistas que criaram a exposição, que pretende levar o observador a pensar na morte e consequentemente na vida.
«A vida só tem sentido se houver morte», salienta.
«Não esquecerão o que viram»
A galeria abriu portas na Rua dos Remédios no início de Setembro, estando prevista a sua abertura oficial em Novembro, altura em que as peças expostas estarão disponíveis para venda.
Até lá, indicou o artista inglês, todos são bem vindos a entrar neste espaço para ter uma ideia daquilo que será a exposição.
A decisão de abrir a galeria em Lisboa é justificada com a maior facilidade de entrar no meio cultural, face a outras capitais europeias.
Moscas, larvas e carne putrefacta podem repugnar quem por ali passa, mas mais importante que tudo é que «não esquecerão o que viram», o que obrigará sempre as pessoas a reflectir sobre a vida e a morte.
As opiniões dividem-se
Entre a população, as opiniões sobre a obra dos dois artistas divergem, mas a curiosidade parece ser generalizada entre os moradores de Alfama.
Rosário, moradora, diz que olha «sempre para lá, a ver se lá está a mesma coisa».
Confessa que se assustou a primeira vez que viu a obra, que lhe «parecia um chispe», mas depois ouviu dizer que «era um osso de presunto cheio de bichos».
Ivo, trabalhador no bairro, viu de passagem a obra, que diz ter achado «arrepiante», apesar de defender «a diferença e a originalidade».
«Aquilo faz-me um bocadinho de confusão. Uma varejeira... cultura», ironiza.
In Portugal Diário 27/09/2007
Debate sobre o Terminal de Cruzeiro
Traficante caçado em Transacção em Alfama
"A PSP de Lisboa deteve um homem de 44 anos por tráfico de estupefacientes após tentar vender droga a outro indivíduo na zona de Alfama.
Pelas 17h30 de domingo um elemento da PSP surpreendeu os dois homens durante a transacção, mas estes colocaram-se em fuga pelas ruas estreitas do bairro de Alfama.O polícia perseguiu o traficante, conseguindo interceptá-lo pouco depois. Antes de ser detido, o homem ainda tentou desembaraçar-se da droga e de alguns objectos, mas foi impedido pelo elemento da polícia que estava no seu encalço.Ao traficante foram apreendidos vários tipos de droga, nomeadamente 4,34 gramas de heroína, duas gramas de haxixe, quarenta e quatro comprimidos para misturar com estupefacientes, uma navalha tipo borboleta e 423 euros, que se supõe serem produto do tráfico de droga.Presente ao Tribunal de Instrução Criminal, o indivíduo ficou obrigado a apresentações periódica numa esquadra."
Imóveis e valor de metro quadradro
Se tiverem algum tempo, basta fazerem uma pequena pesquisa na net sobre imóveis e existe algo que nos surpreende a todos, menos para quem já comprou ou procura casa para comprar. Em primerio lugar, o valor por metro quadrado de uma casa aumenta só e unicamente pelo simples facto de a mesma se situar no concelho de Lisboa. A razão é unica e exclusivamente o facto de assim não existe o problema do transito. Só quem não cicula m Lisboa é que acha que o transito só há entrada da cidade e não dentro desta. Todos os que por alguma razão têm de andar de viatura automóvel sabem os problemas da Av. da Républica, e avenidas novas, túnel da João XXI, Avenida da Liberdade, entre muitos outros. Para além do facto de que é cada vez mais dificil estacionar o carro na cidade sem ser nos famosos parques da EMEL. Assim, não precebo qual a razão de as casas serem com valores muito mais elevados (por metro quadrado). Por outro lado, as razões do valor acrescentdo das habitações em Lisboa, não se aplicam a um bairro que aqui falamos - Alfama. É muito dificil para não dizer quase impossivel estacionar a viatura á porta de casa e nos locais que a EMEL têm estão quase sempre cheios. Existindo a necessidade de pagar o estacionamento no Jardim do tabaco, que se for com a autorização da junta onde está a nossa morada, fica pelo valor de Eur. 25,41€. Acresce que a viatura fica em muitos casoa a cerca de 400 metros de casa. Sendo sse percurso que temos de fazer diariamente, msmo com as compras do mês. Por outra lado, as casas têm cerca de 200 a 300 anos. Podemos dizer que são casas históricas, mas sem elevador, se vidros duplos, sem caixas de ar, sem porta blindada, sem tudo aquilo que as pessoas procuram quando compram uma casa e que a evolução dos ultimos 100 ou 200 anos nos deu. Pelo menos pelos valores que estão à venda em Alfama consigo comprar uma casa nova ou recent no concelho da Amadora ou Loures.. Existe a freguesia de São Miguel, uma casa, T0, pelo valor de 85.000€, mas a precisar de remodelação, 4º andar sem elevador, mas indicando que é uma casa do sec. XVIII, histórica, pelo menos história tem. Encontrei outra casa, para obras totais, um T3, com área util de de 70,83 metros quadrados pelo preço de 241.500€. Fazendo o preço por metro quadrado chegamos ao valor de 2.540€. Lembrem-se que dizem para obras totais. Sei que todos os vendedores de casas acham, que uma casa nova com valores por metro quadrado acima de 2.250€, um preço muito elevado. E esta é para obras totais. Consigo encontrar facilmente casas com 4 anos nos olivais com áreas maiores onde o preço por metro quadrado é de 1.771€. E este bairro é doa anos sessenta e talvez o unico feito com algum planeamento. Dai ver-mos cada vez mais placares de vende em Alfama e poucos são tirados. Alguém devia dizer ao proprietário que uma casa em Alfma não é nenhuma mina de ouro. |
Proposta dos vereadores da Lista "Cidadãos por Lisboa" para reconciliar a cidade com o rio
Os vereadores Helena Roseta e Manuel João Ramos elaboraram esta proposta de reconciliação da cidade com o Rio para ser discutida em reunião de Câmara:"Proposta /2007
Reconciliação da cidade com o rio
Considerandos:
O modelo urbano subjacente ao Plano Estratégico de Lisboa ( PE ), aprovado em 1992, e ao Plano Director Municipal ( PDM ), aprovado em 1994, delimitava uma zona intitulada “arco ribeirinho”, constituída “por uma estreita faixa, de Belém a Beirolas, na qual se decidem as relações entre a cidade e o rio” e que “permite a ligação ribeirinha entre os sectores poente, a Baixa e a zona oriental da cidade ( mapa 1 )
O mesmo Plano Estratégico de Lisboa consagrou de forma inovadora a Estrutura Verde da cidade, como um sistema ecológico formado por uma estrutura verde principal e uma estrutura secundária. Os espaços livres da margem ribeirinha do Tejo deveriam, segundo o PE, ser incluídos na estrutura verde principal.
A estrutura verde da cidade acabou por ser consagrada no PDM através das componentes ambientais urbanas. A planta mostra que o arco ribeirinho, para além de dever estar integrado na estrutura verde principal, é simultaneamente zona de elevado risco sísmico, o que contribui para agravar a fragilidade e necessidade de protecção de toda a zona ribeirinha ( mapa 2 ). Recorde-se que as condicionantes urbanísticas decorrentes das componentes ambientais urbanas do PDM prevalecem sobre as regras de edificabilidade.
A frente ribeirinha é também historicamente uma zona portuária, com papel essencial na identidade e na vida da própria cidade. A essa carga histórica há que juntar o papel simbólico do rio e do porto de Lisboa na percepção da cidade ao longo dos tempos e nas múltiplas formas de expressão artística, literária e poética associadas a Lisboa.
A evolução da actividade do porto de Lisboa tem vindo a sofrer impactos significativos com a emergência de novas condições concorrenciais, devidas à evolução tecnológica e à própria globalização, estando Lisboa actualmente em perda progressiva comparativamente a outros portos europeus e até ibéricos.
É determinante para Lisboa promover uma nova visão da zona ribeirinha que permita a reconciliação da cidade com o seu rio, sem perder a função portuária. Esta reconciliação é tanto mais difícil quanto maiores forem as barreiras físicas ao contacto visual e directo com o rio e quanto mais pesadas forem as infra-estruturas portuárias, ferroviárias e rodoviárias sucessivamente instaladas sobre zonas de aterro, paralelamente à linha de costa.
A reconciliação das cidades portuárias com as frentes de água é hoje uma das linhas estratégicas que está a pressionar formas inovadoras de compatibilizar actividades nessas zonas em muitas cidades portuárias do mundo, nomeadamente através da devolução ou criação de novos espaços públicos e da resolução de conflitos entre a fruição das frentes de água e as actividades que nela podem ser exercidas, procurando privilegiar funções de lazer e recreio.
O actual modelo de gestão territorial da zona ribeirinha de Lisboa, sob a jurisdição total da Administração do Porto de Lisboa ( APL ), é um anacronismo que foi amplamente criticado por sucessivas vereações municipais e unanimemente contestado por todas as forças concorrentes às eleições intercalares de Lisboa de 2007.
O Plano Estratégico da APL, ao abrigo do qual têm vindo a ser comprometidas sucessivas áreas da frente ribeirinha para edificações de diversa natureza, não foi debatido publicamente e a CML teve apenas a possibilidade de sobre ele se pronunciar sem carácter vinculativo. No entanto, as disposições do PDM, nomeadamente as condicionantes urbanísticas da Componentes ambientais urbanas, são vinculativas para toda a Administração pública.
Há notícias de intervenções previstas para a zona ribeirinha que podem pôr em causa os objectivos essenciais das componente ambientais urbanas do PDM. Mas além disso não estão a ser salvaguardados o direito à informação e à participação previstos no Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão territorial ( decreto lei nº 390/99 de 22 de Setembro ), respectivamente nos seus artigos 5º e 6º.
No acordo político entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda para a actual gestão autárquica afirma-se que a Câmara deverá exigir do Governo a retirada à APL da tutela sobre as áreas não ocupadas por actividades especificamente portuárias.
Notícias recentes dão conhecimento da intenção governamental de criar para a zona ribeirinha de Lisboa um modelo de gestão territorial que passará eventualmente pela criação de uma terceira entidade, em moldes que não foram apresentados e que não são do conhecimento de toda a vereação.
Os objectivos do rigor e da transparência não devem ser defraudados por processos de decisão que não envolvam, não apenas toda a vereação de Lisboa, mas também os restantes órgãos municipais e os munícipes.
Há hoje em dia experiência acumulada por outras cidades portuárias na prossecução de estratégias de reconciliação entre os seus portos e as respectivas populações que devem ser inspiradoras, nesta fase de mudança, para a cidade de Lisboa.
Assim, proponho:
1. Que a Câmara determine com prioridade a cartografia exacta das “áreas não ocupadas por actividades especificamente portuárias” na zona ribeirinha afecta à APL.
2. Que os serviços da Câmara preparem, sob a orientação do senhor vereador Manuel Salgado, um concurso de ideias sob o tema “Reconciliação da cidade com o rio”, a lançar antes da decisão sobre o modelo de gestão territorial a aplicar na zona ribeirinha.
3. Que o futuro modelo de gestão a aplicar na zona ribeirinha seja objecto de debate público antes da deliberação por parte da Câmara Municipal de Lisboa.
Lisboa, 13 de Setembro de 2007
Pelos vereadores “Cidadãos por Lisboa”
A Vereadora
Helena Roseta "Quanto à proposta não tenho nada contra excepto que parece uma proposta um pouco geral e abstracta e sem nada de conteúdo concreto em relação às zonas onde a cidade se encontra com o rio. E que não são poucas.
Quanto ao nº 1 da proposta dos vereadores é uma proposta de "uma faca de dois gumes". Se olharmos para aquilo que o APL pretende fazer no Cais do Jardim do Tabaco, podem eles dizer que é uma área ocupadas por actividades especificamente portuárias, desembarque de passageiros. Não podendo, segundo eles ser feito noutro local. No entanto, pelo que se sabe do projecto, que é quase nada, é também um centro comercial, um hotel e uma barreira da população para chegar ao rio.
Sendo assim, o APL pode continuar a fazer o que quer.
Em segundo lugar pretendo ajudar quem ler esta proposta o Regime Jurídico dos instrumentos de Gestão Territorial que ao contrario da proposta dos vereadores não é o Decreto-Lei 390/99 mas o Decreto-Lei 380/99 de 22 de Setembro, que poderão ler neste link. Acresce que o mesmo diploma, o Decreto-Lei 380/99 de 22 de Setembro, já foi alterado pelo Decreto-Lei 310/2003 de 10 de Dezembro. Algo que escapou aos assessores dos vereadores, fazendo referencia a um diploma alterado por outro posterior. Podendo estar a falar de normas alteradas. Devem, de futuro ter mais cuidado com as propostas. Devem ter assessores para isso. pelo menos é a função deles, apesar de na prática ser um lugar para amigos e não para que tem capacidade.
Em terceiro lugar, o mapa que apresentam é só da zona de Belém a Beirolas, existe uma área muito maior de contacto da cidade com o rio que não é apresentada nem dado qualquer ideia para o que se poderá fazer. falta igualmente referir a desproporcionada construção e o problemas futuros de transito que se vai criar na zona do Cais do Sodré com os edifícios que estão a ser criados.
ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada

José Claudino Rodrigues Miguéis
Filho de pai galego e de mãe Beirã frequentou o Colégio Francês e o Liceu Camões.

Esteve inscrito, frequentou e concluiu o curso de direito na Universidade de Lisboa, fez colaboração com várias publicações, como “Seara Nova”, que se apresentava como meio doutrinário e crítico, com fins pedagógicos e políticos. Integrou ainda a redacção de jornais como a “República”, “O Sol”, “O Diabo”, e a revista “Alma Nova”. É nesta época que faz amizades marcantes, nomeadamente com Raul Brandão e Bento de Jesus Caraça. É com este matemático que irá fundar, em 1932, o semanário “O Globo”, suspenso no mesmo ano pela censura.
Começa, entretanto, a sua vida profissional como advogado, após a conclusão da licenciatura, em 1924. No ano seguinte, é nomeado procurador da República delegado em Setúbal. Regressa a Lisboa em 1926, tornando-se professor no Liceu Gil Vicente, o liceu da zona da sua antiga residência.
Desgostoso pela falta de liberdade de expressão, a par de um longo rol de restrições provocadas pela instituição da ditadura em 1926 -, leva a que José Rodrigues Miguéis aceite uma bolsa de estudo da Junta de Educação Nacional e parta para Bruxelas, na Bélgica, em 1929, para aprofundar os estudos na área das ciências pedagógicas. Se o objectivo era afastar as suas ideias “subversivas” do País, foi bem conseguido. É no estrangeiro que termina a primeira obra publicada, “Páscoa Feliz” (1932). Recebe, por ela, o Prémio Literário da Casa da Imprensa. Neste mesmo ano casa com a professora russa Pecia Cogan Portnoi.
Regressa a Lisboa em 1933, mas não consegue viver na capital, a falta de liberdade e a censura tolhe os movimentos deste defensor da liberdade. Parte, então, para Nova Iorque. Da viagem que faz aos Estados Unidos guarda imagens valiosas, que irá partilhar com o público na crónica “Gente da Terceira Classe”, editada em 1962.
No ano de 1940, casa em segundas núpcias com a luso-americana Camila Pitta Campanella. No mesmo ano publica um dos seus contos mais conhecidos: “Léah”. Mais tarde, integra-o num conjunto de textos aos quais dá o nome de “Léah e Outras Histórias”, pelo qual receberá em 1959 o Prémio Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Escritores. Estabelece fortes laços com as comunidades portuguesa e hispânica nos EUA e em 1960 é eleito académico correspondente da Hispanic Society of America. Visita Portugal por diversas vezes, chegando a permanecer durante dois anos, entre 1957 e 1959.
Continua a publicar até ao fim da vida. “Nikalai! Nikalai!” (1971), “O Espelho Poliédrico” (1973), “Comércio com o Inimigo” (1973) e “O Milagre Segundo Salomé” (1975), recentemente adaptado ao cinema pelo realizador português Mário Barroso, são disso exemplo. Em 1976 é escolhido para membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e em 1979 recebe um dos graus da Ordem Militar de Santiago de Espada. É um dos escritores mais significativos do século XX. Sem se inserir no movimento neo-realista, revelou dar particular atenção às questões sociais, explorando os temas da emigração e do exílio, descritos com grande realismo. Quando morre, em Outubro de 1980, deixa uma vasta obra e uma influência marcante na literatura portuguesa.
Fado

Transito em Alfama
No dia 15 de Maio de 2007 o Sr. Paulo Amaral, residente no Bairro de Alfama, em representação de um grupo de moradores, fez uma internenção na Assembleia Municipal de Lisboa que passo a transcrever:
"EXMA. MESA DA ASSEMBLEIA
EXMAS. SENHORAS E EXMOS. SENHORES PRESIDENTES DE JUNTA
E DEMAIS ELEITOS
Somos moradores do bairro de Alfama, mais concretamente da Freguesia de Santo Estêvão, e vimos colocar a V. Ex.ªs alguns considerandos do que tem sido estes quase quatro anos de trânsito e estacionamento condicionado, imposto pelo Regulamento Específico da Zona de Estacionamento de Duração Limitada de Alfama.
Há cerca de 4 anos que o trânsito no Bairro de Alfama está sujeito a regras. Desde aí foi implementado um regulamento para condicionar o trânsito e o estacionamento nas ruas do Bairro.
Esse regulamento considera, entre outras coisas, trazer inegáveis benefícios para todos os moradores, nomeadamente:
- a segurança dos moradores, que veriam melhorada a circulação de viaturas de emergência;
- a circulação dentro do bairro, reduzindo bastante os bloqueios causados por carros mal estacionados;
- a facilidade para o estacionamento dos moradores, ao afastar do interior do bairro muitas viaturas de visitantes e outros, apesar de os lugares existentes não serem suficientes para os automóveis dos moradores, e por isso existirem sempre dificuldades;
- a melhoria do ambiente e da qualidade de vida de todos os moradores.
No entanto o que se verifica é que:
- a segurança dos moradores passou para segundo plano, pois continua a verificar-se dificuldade na circulação das viaturas de emergência e da própria PSP;
- continua a ser caótica a circulação nas ruas do bairro, pois ruas há em que existindo dois sentidos só consegue circular uma viatura de cada vez;
- a dificuldade dos moradores em estacionar continua a verificar-se, pois grande parte das viaturas estacionadas não têm dístico de autorização para o fazerem;
- o ignorar de todos os pedidos de reuniões e esclarecimentos, feitos pelos moradores e pela Junta de Freguesia de Santo Estêvão, por parte da administração da EMEL;
- Depois de todos estes contratempos, a qualidade de vida de quem mora no bairro não melhorou, pois continuamos a ter que dar voltas e voltas ao bairro para conseguir estacionar.
Assim, consideramos fundamental para o bem-estar da população do bairro de Alfama o que a seguir enunciamos:
- A execução plena do Regulamento aprovado em sessão de Câmara;
- A fiscalização, por parte dos funcionários da EMEL ou da Polícia Municipal, das viaturas mal estacionadas, estacionadas há vários meses ou sem dístico de autorização para entrarem dentro dos limites do bairro, à semelhança do que é feito em outras zonas da cidade;
- Fazer com que o Regulamento não seja aplicado de forma arbitrária consoante o funcionário de serviço, para que as regras sejam uniformes, ou seja, não haver dois pesos e duas medidas para permitir ou proibir as entradas no bairro;
- Sinalizar nos acessos ao bairro a localização dos parques de estacionamento alternativos.
Para terminar:
Passados quase quatro anos da entrada em vigor da Zona de Estacionamento e Trânsito Condicionado no bairro de Alfama, os moradores sentem-se completamente – e sublinho completamente – abandonados pela Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa."
Lisboa, 15 de Maio de 2007
Comunicação Oral

Santa Apolónia recebe hotel de charme
Diário Económico
Telenovelas em Alfama
Tal noticia em si, não é má. É mais uma forma de Alfama ser conhecida, mas não deixa de ter alguns pontos contra que se não forem calculados podem não ser uma boa noticia:
- Em primeiro lugar é não estereotiparem os cidadãos do bairro. Nem todas as pessoas do bairro são de baixo nível de instrução. Existem cada vez mais licenciados que são de Alfama ou que se apaixonaram pelo bairro. Não existe só varinas, lavadouras ou empregadas de limpeza.
- Em segundo lugar, Devia-se filmar zonas de interesse turístico no bairro e juntar um pouco da história do bairro. Já que o povo gosta de novelas porque não ensiná-lo sobre as zonas das filmagens.
- Em terceiro lugar que as filmagens não impeçam o normal funcionamento da vida no bairro. Que as equipas de filmagem não se considerem donos do bairro e fechem ruas obriguem os moradores a ter de alterar a sua vida por causa de umas filmagens que não têm nada a ganhar.
No entanto, se estas regras e outras de bom senso forem estipuladas as filmagens são algo de positivo para o bairro. E têm no bairro de Alfama um grande palco para uma boa história onde os próprios moradores estão dispostos a ajudar.
Miradouro de Santa Luzia


Mas rapidamente caí na realidade, o empreiteiro, por falta de pagamento, abandonou a obra tendo levado tudo o tinha. No entanto nada no Jardim foi reparado:
- Os azulejos continuam em péssimo estado e não sendo reparados nem protegidos, vão ser furtados os que se encontram em bom estado.
- As plantas do jardim não estão cuidadas existindo apenas algumas flores que lutam por dar alguma beleza ao espaço.

- A base do guindaste que existiu para as obras, está a fazer companhia á estátua do Júlio Castilho, mostrando que quanto a divida da câmara for paga ele vai voltar e que ainda não é desta vez que ficaremos com o Jardim.
- Os bancos estão partidos.
- A iluminação é insuficiente.
No fundo, pretendo para o jardim o que todos pretendem para ele, estar em condições para os moradores usufruírem dele.
Os animais perigosos em Alfama
Acontece que a C. M. Lisboa delegou nas juntas de Freguesia a notificação dos donos dos animais potencialmente perigosos. sendo da função desta a notificação dos autores das contra-ordenações e informar a C.M.Lisboa de como está a decorrer o recebimento das multas. Sem que os arguidos (donos dos animais) sejam notificados não pode a C. M. Lisboa executar ou levar os animais para o canil, continuando os mesmo a importunar os cidadãos.
Acontece que fiquei a saber que, pelo menos, a junta de S. Miguel não fez uma única tentativa de notificar os donos contra quem a PSP levantou auto de contra-ordenação. Deste modo, nenhuma multa poderá ser cobrada nem poderão ser os animais levados para o canil municipal.
Não compreendo qual a razão de não notificar os cidadão, existindo apenas duas razões:
- Negligencia e descuido - Não sendo para isso que os eleitores elegeram a Junta.
- Não querer entrar em conflito com potenciais eleitores e perder votos - Neste caso é necessário perceber que não se pode agradar a Gregos e a Troianos, devendo sempre um politico fazer as coisas pelo bem da sociedade. E, Obviamente a sociedade pretende andar em segurança e não ter medo de uma animal pertencente ao vizinho.
Deste modo, deve a Junta notificar as cidadãos do valor da multa e se ela não for paga indicar tal situação ás autoridades competentes.
Paixão (III)
Mas finalmente chegou o verão.
No verão as ruas do bairro fervilham de vida. As casas passam a ser moradas para comer e para dormir e as ruas como grandes salas de estar. Como se o bairro fosse uma grande casa, como dizia Ary dos Santos, “um casa sem janelas”. Muitas vezes as pessoas de pisos superiores como não pretendem sair e ter de descer as escadas ficam a janela ou nas pequenas varandas. E era nessa sua varanda que a Carla passava grande parte do tempo. Ela adorava ler e de estar sentada de costas viradas para a rua. Na realidade de costas viradas para o bairro. Como se ele não fosse importante para ela. Vivia fechada no seu mundo onde tudo o resto fosse supérfluo. Nunca ele iria perceber mas é esse o espírito reinante em Alfama. O individualismo, considerando tudo o resto supérfluo. Com uma pequena diferença. O bairro considerava isso não para os seus habitantes mas para os visitantes, considerava supérfluo o resto que não fosse de Alfama. Era apenas um pormenor, mas aquele anjo tinha o espírito de Alfama.
Mas o facto de a ver permitia-me ser um pouco mais feliz e fazia-me ganhar coragem para pedir para ela descer. Certo dia, estava a Carla na varanda e a D. Manuela na janela das escadas com a vizinha do lado. Pensei – Porque não?
- D. Manuela a Carla pode descer?
- Pode, se ela quiser.
Vi um pequeno sorriso na cara da Carla.
- Mas vou descer para quê? - Perguntou a Carla.
-É difícil falar com alguém que está a dois andares a cima. Anda, podemos ir dar uma volta ao bairro.
- Eu conheço o bairro. Não me perco - Respondeu a Carla. Mas apesar da resposta negativa vi um leve esgar no seu rosto a solicitar que eu insistisse. Na realidade, talvez não tenha visto nada pois eu sem óculos vejo mal à distância e nessa altura tinha a mania de não os usar para não parecer feio.
Após alguma insistência e tendo a D. Manuela do meu lado, a Carla desceu. Andámos a passear a tarde toda. Foi uma tarde perfeita, estava a passear em Alfama com a mais bonita mulher que alguma vez tinha visto e, desta vez, ela estava a passear comigo. Pois na minha imaginação já tinha feito aquele passeio com ela, Mas hoje é real.
Tornámo-nos bons amigos e para mim era a mulher da minha vida. Quase todos os dias nós estávamos juntos.
No entanto, ela nada sabia ou desconfiava da minha paixão. Parece que é verdade. Segundo o povo em questões de Amor o visado, neste caso a visada, é sempre a ultima a saber. Via-me como um amigo que podia ter num bairro completamente estranho. Eu sonhava no dia em que pela primeira vez ia dizer a alguém que gostava dela, que queria que fosse minha namorada. Em que pudesse terminar a minha historia amorosa com o famoso “e viveram felizes para sempre”.
Não era a primeira vez que eu gostava de uma rapariga, mas sempre fui muito cobarde e nunca tive coragem de dizer nada. Já tinha beijado raparigas, mas nunca nenhuma que eu gostasse realmente. Parecia difícil fazer com alguém de quem nós gostamos mesmo. Era mais fácil com as outras. Se não lhe ligavas muito ias mais descontraído. Não te preocupavas que algo corresse mal. E, por isso não corria mal. Mas agora era diferente. Eu estava apaixonado por ela. Eu pensava nela todos os minutos, eu respirava, comia e bebia-a nos meus pensamentos. Eu tinha de dizer o que sentia por ela e tinha de saber se ela sentia o mesmo por mim. E o pior é que ela podia dizer que sentia o mesmo por mim e ai vinha o grande problema. E se eu a beijasse mal? E se eu não fosse tão bom namorado como amigo? E se…
Era esse o meu problema. Mas eu estava cada vez mais apaixonado por ela.
Este sentimento aumentava exponencialmente cada dia que passava. Eu tinha de dizer o que passava na minha cabeça. E naquele dia não podia passar. As palavras tinham sido exaustivamente treinadas. Na minha cabeça fui alterando e melhorando o discurso. Ele não podia falhar. O discurso cuidadosamente aperfeiçoado, algumas vezes com palavras tiradas do dicionário, estava pronto.
Após ter ajudado o meu pai (ele tem um restaurante), esperava ouvir os passos da rapariga que eu queria para o resto da vida. Não conseguia ouvir, ou não desceu ou passou numa altura em que o barulho dentro do restaurante era tão grande que nem os meus apaixonados sentidos conseguiam ouvir. Nem das inúmeras vezes que vim à porta pelos supostos passo Vim à porta e olhei para a janela. Ela estava na janela das escadas. Eu decidi – Era agora:
- Olá !
- Olá, Helder.
- Posso falar contigo?
- Podemos falar daqui a um bocadinho.
- Tem de ser agora.
- OK, eu desço.
- Não, eu subo.
Achei que teria mais privacidade falar nas escadas do prédio do que nomeio da rua onde as paredes têm mais do que ouvidos. As ruas de Alfama não permitem que ninguém tenha uma conversa particular.
Subi as escadas num ápice e cheguei num instante ao pé do objecto da minha paixão.
- Entra Helder, para falarmos.
- Não, quero falar contigo aqui fora.
- Diz.
- Já nos conhecemos há algum tempo e desde que te vi pela primeira vez tenho um sentimento que com passar do tempo não desapareceu mas cresceu. Eu, desde o primeiro dia que te vi, gosto de ti. És uma mulher bonita e conhecer-te fez-me agradecer que o Zé Carlos tivesse sido atropelado. Não que ele merecesse, mas assim pude conhecer-te. E pude estar contigo e conhecer-te e ver que és a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida. E por isso gosto de ti e queria namorar contigo…
- Helder, eu gosto de ti como amigo. Se eu pudesse escolher, escolhia-te a ti. Mas no Amor não se escolhe. É o coração que escolhe. Por isso peço desculpa, mas não vou aceitar.
- Não faz mal – disse – mas eu tinha de dizer.
Desci as escadas. O meu plano tinha falhado redondamente. O texto que tinha criado não saiu. Nem uma palavra. Tudo aquilo porque tinha treinado foi-se no meio do nervosismo. E ela respondeu que não. O não que eu, no meio do meu medo, esperava mas que não queria.
No entanto, não estava chateado, mas contente. Não estava triste, mas feliz. Não estava desapontado mas satisfeito. Tinha dito a alguém que gostava o que sentia. Tinha colocado, mal, mas tinha colocado em palavras o que sentia. E a partir desse dia não precisava de disfarçar perante ela. Sentia-me pela primeira vez um homem. Tinha, pela primeira, vez algo que sempre me pareceu de adulto. Dizer a quem amamos que a amamos.
Paixão (II)
Rapidamente comecei a reconhecer os seus paços quando descia as escadas, a sua voz no meio da rua. Mesmo a meio da manhã, no meio pregões das varinas, no barulho das crianças, eu sentia o seu andar, o seu respirar. Algumas vezes falhava, alguém conseguia imitar o andar dela, a sua voz, a sua maneira de descer as escadas. Mas noutras vezes acertava. E ela lá estava.
Ela costumava sair com a avó nas suas compras diárias. Alfama é um bairro muito único. Era normal as pessoas fazerem as compras para o próprio dia. Existiam talhos que abriam de terça a sábado às seis da manhã, fechavam às 16 horas.
Um dos mais conhecidos era o talho do Sr. António – Ti’António para mim. E ele nunca foi meu familiar. É apenas uma das formas de tratar as pessoas por quem tenho grande apreço e respeito. Assim, não se trata essas pessoas num distante “Senhor” ou “Senhora” mas num próximo Tio ou Tia. Dessa maneira quer o sujeito quer o destinatário sabia que aquela relação era especial.
Quanto ao peixe a variedade era imensa. Na rua de S. Pedro existiam, pelo menos 15 varinas que vendiam o seu peixe de terça a sábado. A Rua de S. Pedro era também denominada de Rua do Peixe. O cheiro do peixe tinha-se entranhado nas pedras da calçada. Apesar dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa lavarem a rua diariamente logo após as varinas encerrarem o seu negócio às 15 horas. Mas o bairro cheirava a peixe, o bairro cheirava a mar. Mas não digo isto como critica ou como sinal depreciativo. Foi o Mar, ou a baia calma, designação fenícia que originou a palavra Lisboa, que fez que o povo tenha escolhido Alfama para viver. Há sua frente tinha uma fonte de alimento e dentro do bairro tinha muitas nascentes de água. Assim, tínhamos tudo o que era preciso para um povo se sedentarizar. Não faltava água nem comida.
Saudades de algo que já não volta.
Era normal a D. Manuela vir à rua fazer as suas compras diárias, agora na companhia daquele anjo.
- Olá Carla, como estás?
- Bem e tu?
Depois vinha a conversa do tempo e ficava sem nada para falar. Na realidade eu não precisava de conversa. Só de a ter ao alcance da minha vista.
Dificilmente eu conseguia ter a Carla na rua. Era uma rapariga de casa, não gostava de estar na rua – Não era de Alfama, onde para nós a rua é mais uma assoalhada da casa.
É normal encontrar as portas das casas abertas. Tal situação é devido a uma razão sócio-arquitéctonica ou arquitectónico-sociológica. As casas em Alfama são muito pequenas e com pouca iluminação. Muitas vezes têm divisões interiores e apenas uma ou duas janelas. Deste modo é normal encontrarmos portas de entrada com janelas e portas abertas. Tal situação vem minorar as duas características dos imóveis em Alfama. Com a porta aberta entra mais iluminação natural para dentro de casa e, por outro lado têm-se a impressão que a casa é maior. Como se a casa se alargasse para a rua e para dentro da casa dos vizinho que têm igualmente a porta aberta.
Talvez por esta arquitectura, pelas pessoas ou pela história. Não podemos esquecer que a arquitectura é de origem árabe onde a introspecção familiar e social é rainha onde as casas são constituídas de acordo com a cultura muito particular. Existe em Alfama uma sociedade diferente do resto da cidade. Todas as pessoas do bairro se conhecem. As notícias correm muito depressa. E, por isso, existe entre os habitantes do bairro uma mistura de Amor e Ódio Familiar. As pessoas adoram-se, mas muitas vezes por questões sem a mínima importância, deixam de se falar, chegando a existir confrontos físicos.
Nobreza e Família – Títulos em Alfama
Em primeiro lugar, existe um certo “título” que as pessoas mais conhecidas do bairro passam a ter. Esse título é individual, pessoal e hereditário. Como se fosse um titulo nobiliárquico que os outros a tratam.
Por exemplo: Existiu um senhor em Alfama chamado José e que tinha como profissão a venda ambulante. Em certa altura da vida vendia gravatas e por isso e por ser muito conhecido no bairro passou a ser o “Zé das Gravatas”. Mas não foi só uma alcunha. Pois hoje esse senhor já faleceu e o titulo do é das Gravatas já passou para o filho e para o neto (que nunca venderam gravatas, nem se chamam José).
Assim, o titulo deixa de ser uma alcunha e passa a ser um título, hereditário. Tal situação é ipis verbis para outros nomes conhecidos de Alfama como os Pipis, os Bexigas, os Casas Novas, os do Barracão, os do Castanheiros, etc…
Em segundo lugar, e tendo consciência que quando se entra em Alfama não entramos num bairro mas, como dizia o poeta “numa casa sem janelas”, existe outra particularidade.
Todas as pessoas do bairro sabe a vida uma das outras. Todos fazemos parte da mesma família, para o bem e para o mal.
Tal situação não que dizer que todos nos damos bem. É como nas famílias. Todos temos parentes que não falamos, outros que gostamos muito, que somos amigos.
Assim se passa em Alfama.
Ao lado do estabelecimento dos meus pais, existia outros dois – Um Talho e uma Peixaria. O talho do Ti’António e a peixaria da T’Isaura. Era um titulo que se atribuía às pessoas que eram mais do que amigos. Eram “familiares”. Não do ponto de vista do sangue, mas pelo respeito e amizade que por ele nutríamos.
Eram, e uma ainda viva, é alguém que tenho muita estima, respeito e amizade.
Esses títulos familiares são usuais em Alfama. Quantas crianças não tratam por avós, vizinhos. Por Tio e Tia, amigos.
Se calhar decidiu-se quebrar a regra de que a família nos dão e que os amigos nós escolhemos.
Em Alfama, decidimos escolher a família.
Conto: Paixão
O Zé Carlos estava no hospital. Estava em coma. Fora atropelado. Conhecia-o desde pequeno. Não é que agora, com 16 anos, fosse muito grande, mas já me considerava um adulto.
- Mãe, vá perguntar à avó do Zé como ele está?
- Eu pergunto quando ela descer à rua.
A avó do Zé Carlos, a D. Manuela, vivia dois andares por cima do negócio dos meus país. Eu conhecia-a, mas tinha vergonha de subir as escadas para perguntar como estava o meu amigo.
Após perguntar, durante alguns dias, como estava o Zé a minha mãe disse-me:
- Sobe e pergunta. O amigo é teu – Não valeu dizer mais nada. Ela era uma mulher decidida. Fui obrigado a subir para ir perguntar como estava o Zé.
O Zé não era um rapaz de Alfama, vinha para o Bairro quando estava de férias. A casa da avó era a morada de grande parte de muitos rapazes de Alfama. Os pais tinham e têm apenas um mês de férias e os filhos tinham três meses. Assim, dois terços das férias eram passados na casa dos avós. Grande parte dos meus amigos, nessa altura, imigrantes em Alfama. Crianças que quando cresceram não precisaram de voltar ao Bairro e afastámo-nos para sempre.
Toquei à campainha. Uma voz no interior disse:
- Eu vou lá.
A porta abriu. Um anjo abriu a porta. Um anjo de pele morena, cabelo comprido, liso, castanho-escuro, com calções azuis, curtinhos, camisa amarela, com dois limões estampados, um inteiro e outro cortado ao meio.
Aqueles dois olhos castanhos fitaram-me.
- Olá, como estás? – Não sei como, conhecia-me.
- Bem – respondi.
- Viste saber do Zé Carlos? – Ela conseguia ler o meu pensamento. Não o imediato, pois este estava deslumbrado por tamanha beleza e não conseguia pensar. Mas conseguia saber o que fui fazer ali.
- Entra e senta-te.
Mais rápido que o pensamento, sentei-me e comecei a falar com aquele anjo.
- Carla, quem é? – perguntou a D. Manuela.
- É o Helder. Veio perguntar sobre o Zé. – Ela sabia o meu nome. Aquela anjo sabia o meu nome.
D. Manuela veio da cozinha e pergunta-me:
- Então Helder tudo bem?
- Sim. – respondi sem tirar os olhos daquela beleza que me tinha aberto a porta.
- Vieste saber do Zé?
Qual Zé? - Foi o meu pensamento inicial, mas logo cai na realidade.
- O Zé está melhor? – Perguntei.
- Sim. Ele já saiu do coma e para a semana vem para casa.
A partir desse dia fui perguntar como estava o Zé todos os dias, para poder voltar a falar com aquele anjo.
Nesse dia quando desci as escadas todo o meu corpo sorria. Estava feliz, mas não pela recuperação do meu amigo. Estava apaixonado.
Continua…
Qualquer relação entre esta história e a realidade não é pura coincidência…
Proposta para a Doca do Jardim do Tabaco

Os Bexigas - Conto baseado em factos reais
Quando entrei no restaurante a curiosidade, algo “genético” de quem é de Alfama, chamado de cusquice pelos de fora, fez-me perguntar quem tinha morrido.
“O Bexigas” – disse a minha mãe.
-“Caiu pelas escadas quando estava a subir. Andava sempre bêbado. Era o desgosto. Enterrou duas mulheres, um filho e os dois que cá andam, tu sabes”.
E sabia. Os Bexigas é daquelas famílias que quem a conheceu ao início nunca podia pensar que iriam terminar assim. É o fado de Alfama.
A família não tinha o nome de Bexigas. Na realidade nunca soube o nome de família. Eram os Bexigas por causa da doença que o pai tinha – Bexigas. Tais nomes são típicos de Alfama – existem os das gravatas, os pipis, os do barracão, etc. Títulos de um bairro do povo.
O pai casou a primeira vez e teve dois filhos. Eram os filhos da mamã. Gémeos. A mãe nunca os deixava sozinhos. Eu era pequeno, mas lembro-me de ver aquela mãe a passear na rua de S. Pedro com os dois meninos pela mão. Eram considerados os meninos mais bem comportados de Alfama. Grandes esperanças tinha aquela mãe nas suas crias. O pai tinha deixado a educação para a mãe. Resquícios da “outra senhora”. O pai trabalhava na estiva e era essa a sua função para a estabilidade da casa. A mulher tinha a função dos filhos e da casa e segundo consta muito bem. Conforme dizem os mexicanos “os alicerces da casa não é o chão mas a mulher”.
No entanto o fado de Alfama voltou a falar. Um cancro veio abalar os alicerces da família, senão mesmo destruí-los. Os meninos ficaram órfãos de mãe, quando a sua educação não estava minimamente completa. Ficaram desamparados, sem mãe, com um pai presente mas ausente. Num bairro onde a droga entrava facilmente, onde a falta de esclarecimento e o prazer inicial que estas davam, esquecendo todos os males do mundo, fizeram muitos cair em tentação.
A desgraça apoderou-se da mente frágil do Bexigas. O álcool era como que um escape para a desgraça que tinha de enfrentar diariamente. Como iria ele tomar conta da família? Como iria ele fazer a função que nunca soube? Como poderia ele ser os alicerces da casa se ele próprio baseavasse na mulher? Como?
Sem reparar deixou os dois filhos desamparados andavam na rua mas sem a mão da mãe, andavam desejosos que alguém lhes desse a mão. E nessa altura quem aparece não é a pessoa mais indicada. Amigos, que dizem ter a solução para a tristeza, que lhes prometem o céu, mas que lhes dão o inferno.
Passado algum tempo casou novamente e teve outro filho. Mas vida nunca mais foi igual. Não sei se por desgosto, se por infelicidade ou se por fado. O álcool passou a fazer parte da vida. Da dele e da nova mulher. Os filhos mais velhos foram como que deixados ao vento. Não sei por culpa de quem, de todos, ou se houve mesmo culpa, senão do fado. A droga entrou na família pelas mãos dos irmãos mais velhos. Lembro-me de vê-los caídos nas ruas de Alfama. Os filhos da mamã estavam perdidos. Nunca mais foram capazes de fugir a este vício. E a droga trouxe todos os outros problemas. Já foram presos inúmeras vezes, são mal vistos no bairro, e quando estão soltos não conseguem arranjar emprego. Mas nunca os ouvi serem mal-educados, resquícios da educação da mãe, que continuava a soar naquelas cabeças.
Quanto à segunda mulher faleceu há cerca de 2 anos com uma cirrose. O fado da família continuo a mandar na família.
Mas não é da família Bexigas que vos quero falar, mas do filho mais novo, o Paulo. Esse, eu conheci desde menino. Jogámos futebol, falámos de namoradas, andámos á porrada por razões estúpidas. No fundo, crescemos juntos. Em 2007 faria cerca de 29 anos se fosse vivo. Era um miúdo inteligente, bonito, traquina, magro, que me vencia, sempre a jogar xadrez. Mas aquela mente não parava. Podia ser alguém na vida, mas o fado não o deixou. Vivia numa casa destroçada – Por um pai que vivia no passado, por uma mãe que por nunca se sentir ser os alicerces, desligou-se dos mais velhos (que nunca os considerou dela) e não deu atenção ao mais novo. Se quisesse não estudava, nem ia às aulas. Muitas vezes nem a casa ia para comer. E nunca ninguém se preocupou. Cresceu com a ideia de uma vida fácil. E foi essa vida fácil o seu fado.
Sem estudos, os empregos não prestavam e eram mal pagos. Sem família para o orientar. Num passo caiu na tentação do dinheiro fácil – a prostituição. Queria o que via nos outros e não podia ter. Conforme me disse um dia “se não tivesse visto riquezas, não me importava de ser pobre”. Conforme dizia o povo – Ganhava dinheiro só por baixar as calças.
Mas o povo esquece-se o que isso faz à cabeça dos rapazes. Aquilo por que passaram, por que passam, o que fazem para ter aquele dinheiro “fácil”, tem de ser esquecido. Nada melhor do que a droga para ajudar a ter este dinheiro “fácil”.
Não sei se pela droga se por ter relações desprotegidas (soube que essas são mais bem pagas) o destino pregou-lhe novas partidas – o HIV/SIDA.
Não sei quando a apanhou, mas lembro-me ver aquele rapaz onde a inteligência o tinha colocado assim, a beleza tinha desaparecido, a traquinice tinha-se desvanecido, mas magro, magro como nunca. Ninguém lhe dava 24 anos. A vida fácil foi muito desgastante e tinha tornado velho e doente um rapaz jovem.
O Paulo Bexigas nunca foi piloto de aviões da força aérea, seu sonho de criança, nunca casou com uma mulher loira e bonita, nunca teve uma casa em Cascais. No final nunca teve vida.
O fado de Alfama ganhou mais uma vez. No fim ficou-me a lembrança deste jovem que no futuro ninguém se vai lembrar, onde os sonhos escorreram pelas mãos como areia fina, onde os sonhos se tornaram pesadelos e a vida fácil tornou-se num inferno.
A morte do pai Bexigas veio colocar fim à sua vida desgraçada. Duma vida talhada na pedra para a felicidade mas que uma falha veio estragá-la.
Fados de Alfama.
Acerca de mim
- Helder Gomes da Silva
- Lisboa, Alfama, Portugal
