Imagens de Alfama

Turistas a saque em miradouros de Alfama

Os casos de furtos a turistas nos miradouros históricos de Alfama estão a criar uma verdadeira onda de indignação entre quem ali vive ou trabalha. Nos eléctricos, a situação arrasta-se há anos e há relatos de roubos com grande violência nas vielas do bairro.
Um passeio pelo mais castiço bairro da capital pode revelar-se um autêntico pesadelo. Especialmente, se incluir uma paragem nos miradouros de Santa Luzia ou Portas do Sol, dois locais de onde é possível desfrutar de uma magnífica panorâmica sobre a cidade e o rio.
"Andam aí todos os dias. Já os conhecemos. Apanhar os turistas desprevenidos num momento de lazer e roubar-lhes malas e máquinas fotográficas é o "trabalho" deles", conta ao JN um habitual frequentador do espaço, que solicita o anonimato, com receio de represálias. "É que, quando avisamos os estrangeiros, eles ameaçam-nos. São perigosos", explica.
Os relatos falam em grupos de jovens - portugueses e estrangeiros - que abordam os turistas de forma discreta. "Muitas vezes, passam também por turistas, com mapas na mão que abrem, para dissimular os furtos. E andam bem vestidos", revela outro testemunho.
"Não imagina como as coisas se passam. Eles actuam em bando, os turistas não dão por nada e quando se apercebem já não há nada a fazer", conta um homem, que trabalha num estabelcimento comercial vizinho.
"Já vi pessoas desesperadas, a chorar, por ficarem sem nada. Dinheiro e documentos", diz o mesmo testemunho. Recorda um caso recente em que uma turista de nacionalidade russa "quase morria com um ataque de pânico" quando constatou que lhe tinham roubado a mala. "Além da documentação, levaram-lhe mil euros", recorda.
"Isto é uma calamidade", desabafa Francisco Maia, presidente da Junta de São Miguel, que, recentemente deu conta destes casos ao presidente da Câmara. António Costa tomou nota e "mostrou-se muito preocupado", afiança o autarca.
"Toda a zona é aprazível para o relaxe e para disfritar da paisagem, que é o que os turistas fazem", salienta, destacando que há "autênticos bandos" que se aproveitam disto para actuar. "De dia é um caos, e, à noite, no interior do bairro, ainda é pior, com roubos por esticão, com alguma violência", diz.
"É uma brutalidade"
Na vizinha freguesia de Santo Estevão, a presidente da Junta, Maria de Lurdes Pinheiro, fala de roubos com grande violência. "É uma brutalidade! Muitas vezes, os turistas são puxados para o interior de um beco, encostados à parede e agredidos por grupos, que depois de roubarem, desaparecem rapidamente", conta.
Os dois autarcas chamam ainda a atenção para o facto de a própria geografia do bairro ajudar às intenções dos assaltantes. E dão conta que muitas vezes, agridem os turistas e fogem pelo interior dos pequenos becos. "Quando a polícia chega, já estão metidos dentro de casa, ninguém os apanha na rua", revelam.
A polícia tem feito alguma vigilância e chega a deter alguns jovens, mas, segundo um frequentador do miradouro de Santa Luzia, "duas horas depois de serem levados para a esquadra já estão de volta".
Idosos também não escapam
E não são só os estrangeiros os alvos destes grupos. "Outro dia, fingiram que eram turistas e pediram a uma senhora de 90 anos, que mora aqui e estava sentada num banco do jardim a apanhar sol, para tirar fotos com ela. Quando foram embora, viu que lhe tinham furtado a mala, com todos os seus documentos e dinheiro", conta outro transeunte.
Também os eléctricos são palco frequente de casos destes. "A situação é muito preocupante, os problemas têm sido muitos, com roubos a turistas e velhotas, a par de actos de vandalismo", resume Maria de Lurdes Pinheiro.
Francisco Maia garante que não vale a pena colocar cartazes a avisar os turistas dos perigos, mas defende que é preciso repensar o policiamento. "Os agentes têm de fazer mais vezes o percurso entre Santa Apolónia e o Castelo", diz.

Fado Patrimonio Imaterial da Humanidade

O fado é Património Imaterial da Humanidade segundo decisão hoje tomada durante o VI Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

O Presidente da República já se congratulou com esta notícia, considerando-a «motivo de orgulho para todos os portugueses».

«A partir deste momento, o fado é reconhecido como um Património de toda a Humanidade, um valor inestimável no presente e uma herança cultural importante para as gerações futuras», lê-se numa mensagem do chefe de Estado divulgada no «site» da Presidência da República.

Também o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, afirmou em comunicado que a distinção da UNESCO ao Fado dá aos portugueses «alegria [...] numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas».

Num comunicado enviado à Lusa, Francisco José Viegas diz que esta decisão irá «contribuir para que as atenções do mundo se voltem para um dos emblemas da nossa cultura e do nosso talento».

O antigo presidente da Câmara de Lisboa Pedro Santana Lopes lançou a ideia de candidatar o fado a Património Imaterial da Humanidade e escolheu os fadistas Mariza e Carlos do Carmo para embaixadores da candidatura.

A candidatura foi aprovada por unanimidade pela Câmara de Municipal de Lisboa no dia 12 de maio de 2010 e apresentada publicamente na Assembleia Municipal, no dia 01 de junho, tendo sido aclamada por todas as bancadas partidárias.

No dia 28 de junho de 2010, foi apresentada ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e formalizada junto da Comissão Nacional da UNESCO. Em Agosto desse ano, deu entrada na sede da organização, em Paris.

A candidatura portuguesa foi considerada como exemplar pelos peritos da UNESCO, tal como o Paraguai e Espanha.

Os registos de azulejos em Alfama pelo Museu da Cidade

A azulejaria, constitui no universo patrimonial português, uma das manifestações artísticas de maior autenticidade, estando presente no nosso quotidiano de forma quase permanente, tal a profusão de testemunhos existentes.
Entre as diversas manifestações da arte azulejar, bastante vulgares na capital portuguesa, têm particular expressão os registos de santos, painéis devocionais que conferem uma nota de pitoresco ao “espaço público” e constituem testemunhos de “religiosidade popular”. Figuram, geralmente, nas fachadas e átrios de casas, podendo encontrar-se, por vezes, em frontões, muros e nichos, de quintas e palácios, ou ainda, aplicados em equipamentos rurais.
Estas peças constituem um referencial importante para a compreensão do quadro mental subjacente à sua encomenda e produção. Por outro lado, muitas destas peças encontram-se datadas, pelo que, no seu conjunto, constituem importante acervo para o estudo da evolução estilística azulejar.
Este tipo de painéis hagiográficos foi incrementado também por determinados acontecimentos, como catástrofes naturais e surtos epidémicos, cujo efeito influenciava as mentalidades, visto que, largos sectores da sociedade, acreditava que a ira e justiça divinas eram determinantes em tais fenómenos, configurando os registos, neste contexto, um poderoso auxílio de sobrevivência.
Por outro lado, as peças constituem exemplos de irradiação taumatúrgica, uma vez que a vida do santo representado ajudava a alimentar a fé do devoto, promovendo um caminho espiritual de salvação e de diálogo com Deus. Por vezes, as peças conjugam dois ou mais santos, na tentativa de potenciar benefícios; nestes casos, a figura sacra mais importante é representada numa escala diferente ou em reserva diferenciada.
A fim de conhecer este interessante património, seleccionámos em Alfama, bairro típico e rico neste tipo de painéis, alguns pontos exemplificativos da religiosidade popular alfacinha, focando o itinerário, principalmente, o período setecentista, durante o qual se produziram as mais representativas peças.
1. Rua dos Cegos, 20-22
Numa casa de ressalto quinhentista, rara na Lisboa pós terramoto, encontra-se aplicado a cópia de um registo de azulejos seiscentista, realizada por volta de 1930. Trata-se de uma peça policroma, sobre fundo branco, tendo representada uma custódia (alusão à Eucaristia), ladeada por dois anjos. O exemplar original pode ter constituído o elemento central de um frontal de altar reaproveitado, sendo paradigmático a passagem da peça, do espaço sagrado para o espaço profano. Os painéis daquela centúria são geralmente pintados por artesãos sem escola, tendo os desenhos contornos a manganês. Apesar da figuração ser ingénua, o cromatismo vincado destas composições torna-as bastante expressivas. Geralmente estes registos integram molduras simples e geometrizantes.

 
 

Escadinhas de Santo Estevão



 



















2 - Largo de Santo Estêvão
Revestimento azulejar de um espaço vazado, que serve de fontanário, integrado no muro de suporte do átrio da igreja de Santo Estêvão. A composição enquadra um registo em azul, do 3º quartel do século XVIII, com a representação de Nossa Senhora do Carmo e o Menino, estendendo escapulários a diversas alminhas que se encontram num plano inferior. Superiormente domina o conjunto, aproveitando a cúpula do “nicho”, a pomba do Espírito Santo.
A invocação da Senhora do Carmo, comum no período setecentista, está muito vezes associada ao resgate das almas do Purgatório. Este terceiro lugar de expiação e purificação final das almas era necessário para a visão beatífica de Deus. A fim de abreviar essa passagem, recorria-se principalmente à Virgem, como intercessora por excelência junto do Altíssimo, para que essa passagem fosse breve.
Neste contexto, a crença de que o escapulário possuía virtudes espirituais fantásticas, estava de tal forma enraizada que os membros das confrarias carmelitas acreditavam que se o envergassem na hora da morte seriam resgatados do Purgatório por Nossa Senhora do Carmo, no Sábado seguinte ao dia do seu falecimento.
O quadro mental religioso sobre o Purgatório e o culto das Almas foi incentivado pelo Concílio de Trento (1545-1563) incrementando-se em simultâneo o culto das devoções. Para o mundo católico era efectiva a interacção entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos (reciprocidade de benefícios). Por essa razão quase sempre estas peças onde figuram alminhas, apresentam legendas apelando à oração de quem passa; no caso: P.N. AVE MA PLAS ALMAS (pede-se um Padre Nosso e uma Ave Maria pelas Almas)
3 - Largo de Santo Estêvão (cabeceira da Igreja)
Registo de azulejos pintado em azul, do 2º quartel do séc. XVIII, em que se evidencia o aspecto cenográfico exuberante e dinâmico, característico do período barroco. A peça tem como temática a Santíssima Eucaristia, vendo-se uma custódia ladeada por putti e dois anjos turíbulos. Isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos.
Este tipo de painéis tinha muitas vezes funções catequéticas de apelo à expiação dos pecados e à redenção. O exemplar é secundado por uma cartela onde se inscreve em latim uma passagem da Bíblia, retirada do livro dos Salmos.
Defronte da cabeceira da igreja onde se encontra a peça fica o Palácio Azevedo Coutinho com bons azulejos barrocos no seu interior.
4 - Rua do Vigário, 86-88
Registo de azulejos policromo, de cariz revivalista, representando o Sagrado Coração de Jesus. Trata-se de uma peça datada de 1929, produzida pela Fábrica de Louça de Sacavém (fundada em 1850 / 1856 e extinta na década de 70 do séc. XX).
Esta devoção remonta aos primórdios da Igreja, desde que se meditava no sangue e água saído do Coração de Jesus, como símbolo do amor por Ele testemunhado na Paixão, para com os homens. A devoção na sua forma actual, deve-se às revelações que o próprio Cristo fez a Santa Margarida Maria de Alacoque (1649-1690), apontando as promessas feitas pelo Seu Sagrado Coração, onde além da grande promessa do poder da Eucaristia, se incluem outras, como o de abençoar as casas em que a imagem do Sagrado Coração estiver exposta e for venerada.
5 - Rua dos Remédios, 145
Registo de azulejos pintado em azul, datado de 1749, cenografado à maneira de um retábulo, tendo a representação de S. Marçal e Santo António e o Menino, encimados pela pomba do Espírito Santo.
Nesta peça testemunha-se a grande devoção do povo de Lisboa a Santo António, o qual é invocado em múltiplas situações. Por outro lado, potencia-se a protecção da casa, conjugando a figura do taumaturgo franciscano, com a de S. Marçal, padroeiro contra os incêndios. A representação deste bispo, entre nós, é muito pouco frequente antes do Terramoto de 1755, constituindo uma das excepções nestas peças.
Importância das datações neste tipo de painéis contribuindo para o estudo da evolução estilística da azulejaria em geral
6 - Escadinhas dos Remédios, 1
Registo de azulejos, de 1757, pintado em azul. A composição representa a Sagrada Família no regresso da Fuga para o Egipto.
A moldura, de estilo rococó, caracteriza-se por ornatos orgânicos, mais simplificados, que imitam a talha, sendo recortada interiormente.
Esta peça testemunha também a importância da datação para a análise estilística.
7 - Rua da Regueira, 12-14
Registo de azulejos, com moldura policroma de estilo rococó, do 3º quartel do séc. XVIII. A reserva, em azul, apresenta Cristo Crucificado, ladeado por Nossa Senhora da Conceição e por Nossa Senhora do Carmo e o Menino, subordinando a composição, em baixo, uma pequena reserva com a figura de S. Marçal.
Trata-se de um exemplar com evidente função catequética, ligada ao culto cristocêntrico, apelando à reflexão sobre o sacrifício de Cristo, evidenciada pela cena do Calvário.
Associa o culto mariológico, recorrendo à figura de Maria, como protectora e mediadora por excelência, junto do Altíssimo.
Completa o quadro, numa escala mais reduzida, S. Marçal, o padroeiro oficial contra os incêndios, cuja veneração teve um desenvolvimento muito significativo após o terramoto de 1755.
8 - Beco do Alfurja
Registo de azulejos, de cariz revivalista, pintado em azul, de meados do séc. XX. Aplicado num muro, mostra o “pastiche” de um famoso quadro de Nossa Senhora da Conceição; efectivamente, a representação da Virgem inspira-se num óleo do pintor sevilhano Murillo (1617-1682), realizado c. 1678 e intitulado Immaculada Conception e, actualmente, no Museu do Prado, tendo sido muito popularizado em litografias.
Esta peça foi produzida na Fábrica Viúva Lamego, fundada em 1849 e uma das poucas ainda em laboração, realiza apenas peças pintadas à mão.
9 - Beco das Cruzes, 2
Registo de azulejos, do 2º quartel do séc. XVIII, pintado em azul. Esta peça do barroco joanino, com enquadramento à maneira de um pórtico, integra as figuras de Nossa Senhora da Conceição e de S. Marçal, sendo este guardado por uma pequena reserva elítica.
A devoção de Nossa Senhora da Conceição teve grande destaque depois da Restauração, aquando da sua elevação a padroeira de Portugal, ganhando particular visibilidade no primeiro terço do século XVIII. A sua iconografia mostra-a assente sobre o mundo e o crescente lunar, pisando a serpente símbolo do mal que enferma a terra.
10 - Escadinhas de S. Miguel (Igreja de S. Miguel, fachada lateral)
Registo de azulejos de cerca de 1770-1785, com moldura policroma, de estilo rococó. A reserva principal, em azul, mostra Nossa Senhora do Rosário e o Menino, e S. Domingos de Gusmão e Santa Catarina de Siena; inferiormente, numa outra reserva, mais pequena, inscrevem-se duas alminhas e as siglas P.N.A.M.
O culto de Nossa Senhora do Rosário triunfou no contexto da piedade contra reformista, tornando-se símbolo da conversão dos gentios. O rosário é constituído por um conjunto de contas que remetem para a reflexão dos mistérios da salvação, através de orações em honra da Virgem, formadas pela recitação de 15 padre nossos e 150 ave marias.
A tradição atribui a origem desta devoção ao rosário, a S. Domingos, e, apesar de tal não corresponder à verdade histórica, ficou a dever-se, no entanto aos dominicanos, o desenvolvimento deste culto.
Neste exemplar espelha-se a acção intercessora dos irmãos pregadores (dominicanos), potenciada pelos rosários que a Virgem e o Redentor lhes estendem.
A peça é atribuída a Francisco Jorge da Costa por ser característico deste pintor ceramista a integração de sugestivas flores nos enquadramentos da fase final do rococó. Neste período, embora coexista a pintura a azul, verifica-se novamente um crescente afirmar da policromia.
O Registo encontrava-se anteriormente colocado na Estrada de Benfica, 383
11 - Rua de S. Miguel, 12
Registo de azulejos do 3º quartel do séc. XVIII, pintado em azul, com moldura de estilo rococó. A reserva mostra Nossa Senhora do Rosário e o Menino e S. Domingos de Gusmão (fundador da Ordem dos Frades Pregadores). O pregador é apresentado com o hábito dominicano, tendo aos pés um cão com uma tocha na boca (os cães do Senhor).
A peça seria originalmente rematada por uma pequena cruz.
12 - Rua de S. Miguel, 4
Registo de cerca de 1758, em azul, com moldura rococó, guardando a figura de Nossa Senhora da Penha de França com o Menino, ladeada por S. Marçal e por S. Francisco de Borja. A Virgem é apresentada com a dignidade de rainha, encontrando-se de pé, sobre uma rocha na qual está um lagarto, um dos seus atributos.
S. Marçal advogado contra os incêndios é apresentado iconograficamente, vestido de bispo e fazendo o sinal de bênção. Na maior parte das vezes, surgem casas em chamas no segundo plano de representação deste santo, constituindo este caso uma das excepções.
S. Francisco de Borja foi elevado à condição de padroeiro contra os terramotos, para todo o Reino e domínios de Portugal. A decisão partiu do Noviciado de Coimbra, ao tempo bastião do magistério da Companhia de Jesus, que pretendia avivar desta forma o culto do taumaturgo. Assim, e por solicitação de D. José I, Bento XIV emite um breve em 24 de Maio de 1756.
O culto em sua honra passou a ser aplicado em todas as cidades no dia 10 de Outubro de 1756, na sequência da qual veio uma relíquia sua para a Igreja de S. Roque. A Companhia de Jesus tentava assim ganhar alguma supremacia espiritual, numa altura em que se adivinhava já a sua expulsão.
Nas peças o santo apresenta como principal atributo uma caveira coroada, que exibe quase sempre na mão esquerda. Por vezes, como neste caso, segura na outra mão um crucifixo. Neste exemplo, S. Francisco de Borja encontra-se erroneamente representado com vestes franciscanas, com barba e estigmas.
13 - Rua de S. João da Praça, 114 (Átrio)
Registo de azulejos, de cerca de 1770-1780, com moldura policroma rococó e duas reservas de diferente escala, em azul, onde figuram Nossa Senhora da Piedade e Cristo, e S. Marçal.
Ao longo do Antigo Regime a obsessão da morte constituiu uma preocupação constante pelo que representava em si, tanto antes como depois dela, isto é, a sua preparação e a expectativa de salvação, sendo caracterizada por uma concepção dolorista associada aos martírios da Paixão de Cristo. Frequente na iconografia religiosa, a representação de Cristo crucificado, com Nossa Senhora a seus pés, ou prostrado nos braços de Sua Mãe, depois de descido da cruz, simboliza o sacrifício redentor do Filho de Deus, o triunfo sobre a morte.
S. Marçal aparece associado a construções em chamas, em virtude de ser considerado advogado contra os incêndios.
A peça constitui um dos raros exemplos que chegaram até hoje e que eram comuns na baixa pombalina, expressamente encomendados para o preenchimento de um espaço específico. Neste contexto a peça fez parte de um programa previamente definido comum na reconstrução pós terramoto, distinguindo-se claramente do painel autónomo que podia ser colocado indiferentemente em qualquer lugar.
A característica representação de flores e folhas na moldura de concheados, permite atribuir a peça ao pintor ceramista Francisco Jorge da Costa.
14 - Rua Cruzes da Sé, 15
Composição de azulejos neoclássicos, do final do séc. XVIII / início do séc. XIX, produzida para o preenchimento do tímpano de um átrio de escada. Integra três medalhões registo, com as representações de S. Marçal e Santo António e o Menino, ladeando Nossa Senhora da Conceição.
Neste período a policromia volta a predominar e as formas simplificam-se; a depurada e elegante decoração recorre a técnica pontilhada e caligráfica, sendo comuns entre outros motivos, fitas, florões, vasos e medalhões.
15 - Beco do Arco Escuro, 17
Registo de azulejos, em azul, do 3º quartel do séc. XVIII. A moldura, de estilo rococó, guarda uma reserva com as representações de S. Marçal, Nossa Senhora da Conceição e Santo António e o Menino.
Rua dos Cegos
Este painel, constitui outro exemplo de adaptação ao espaço, neste caso exterior, entre uma janela e o arco de acesso ao beco; funcionava aqui uma antiga porta da Cerca Velha ou Moura.

Alfama fica em segundo nas marchas

Lisboa viveu no dia 12 de Junho um dos seus dias mais animados, a véspera do Santo António. O ponto alto do dia foi o desfile das 22 marchas populares na Avenida da Liberdade.
As marchas como de costume e segundo manda a tradição competiram entre si para eleger o melhor desfile da cidade. Pela avenida passaram também, fora de concurso, as marchas dos Mercados e Infantil, organizada pela Voz do Operário. No final a grande vencedora foi a marcha do Alto do Pina com 152 pontos, seguida de Alfama (150) e da Madragoa (143). Nas classificações por categoria, a marcha do Alto do Pina venceu ainda o melhor desfile na Avenida da Liberdade e, juntamente com as marchas de Alfama e da Mouraria (14.º), o melhor figurino.
A marcha do Beato, que ficou em 8.º lugar na classificação geral, venceu na categoria de melhor coreografia, enquanto Alfama e Castelo (5.º lugar) tiveram a melhor cenografia.
A melhor letra foi para a marcha do Bairro Alto (7.º lugar) enquanto a marcha da Bica (6.º lugar) venceu na categoria de melhor composição original e, juntamente com a marcha da Madragoa, na de melhor musicalidade.

A origem das
marchas populares

Por meados do século XVIII, em pleno período napoleónico os franceses, iniciaram a moda de dançar as marchas militares, fazendo grandes festejos no mês de Junho para celebrar a tomada da Bastilha.
Chamavam então a essses festejos a “marche aux falambeaux” porque o povo marchava com uns grandes archotes acesos na mão para recordar os revolucionários que tinham tomado a Bastilha.
Mais tarde o conceito foi trazido para Portugal e o povo logo aportuguesou o termo para Marcha do Filambó.
Recorde-se o saudoso Vasco Santana que no filme “Canção de Lisboa” (que o nosso jornal tem oferecido aos assinantes que renovam a sua assinatura), usa esta mesma expressão quando no final de uma luta entre marchantes a polícia dá voz de prisão àquela gente toda e ele diz: “Muito bem sôr guarda, vai aqui tudo para a esquadra na marcha ao filambó”.

Balões em vez de archotes

Na tradição portuguesa os «archotes revolucionários dos franceses» foram substituidos por “balões de papel” e “fogo de artificio”, que tinham sido costumes já trazidos da China no século XVII, e que já eram usados nos arraiais e feiras por todo o País. Mas ar marchas populares pode dizer-se que pegaram de estaca na nossa tradição e assim as antigas danças e cantares de “Maio à Virgem Maria” que entretanto tinham sido proibidas, foram transpostas para o mês de Junho, passando a celebrar-se as festas dos «Santos Populares», “Santo António, São João e São Pedro“. E para terminar em beleza aqui fica a nossa quadra de Santo António:
"Em noite de Santo António
Há manjericos para o freguês
Comes e bebes toda a noite
E lê-se o Mundo Português"

Classificação Final
1º Alto do Pina 152
2º Alfama 150
3º Madragoa 143
4º Marvila 142
5º Castelo 141
6º Bica 138
7º Bairro Alto 136
8º Beato 132
9º S. Vicente 129
10º Graça 128
11º Carnide 121
12º Campolide 118
13º Alcântara 117
14º Sta Engrácia 115
15º Mouraria 114
16º Olivais 111
16º P. de França 109
16º Belém 109
17º Bela Flor 99
18º Baixa 97

Trânsito infernal há 300 anos

Na Lisboa de há 300 anos o trânsito era mais caótico e perigoso que hoje. Matava-se por questões de prioridade e as multas eram pesadas.

Durante séculos, o povo deslocou-se a pé e os nobres a cavalo. As ruas da capital eram estreitas, sujas, malcheirosas e lamacentas. Tanto que os de maiores posses preferiam a água à terra e iam do Terreiro do Paço a Belém de barco. Mas a vida ia-se fazendo.
Em 1581 deu-se o "desastre". Filipe II de Espanha veio a Portugal e trouxe um coche, coisa nunca vista: uma caixa de madeira fechada, bastante desconfortável, em cima de quatro rodas, puxada por meia dúzia de cavalos. A novidade fez escola e não houve nobre endinheirado que não quisesse ter um.
Assim começaram os engarrafamentos e as discussões de trânsito.

Nas apertadas vielas era costume recuar o coche do proprietário com menor posição social, mas quando se encontravam dois iguais era frequente chegarem a puxar da espada. Houve muito sangue derramado nestas discussões, até que D. Pedro II, em 1686, mandou elaborar as primeiras leis, afinal o primeiro código da estrada, colocar os primeiros sinais de trânsito em Lisboa e também alguns "polícias sinaleiros", chamados "práticos".
As penas para quem não cumprisse esse código eram pesadas: degredo para o Brasil e 2 mil cruzados de multa. Na parede do prédio n.o 26 do Beco do Salvador, em Alfama, ainda está a lápide com a inscrição do direito de prioridade. Afinal o primeiro sinal de trânsito que existiu em Lisboa e em Portugal.

por António Mendes Nunes, Publicado em 13 de Maio de 2009 no Jornal i

Novas freguesias para Lisboa

De acordo com o plano apresentado pela Câmara de Lisboa, estas são as novas 24 freguesias em substituição das anteriores 53:

Onze freguesias inalteradas


• Santa Maria dos Olivais

• Benfica

• Marvila

• Lumiar

• Carnide

• Ajuda

• Alcântara

• Beato

• S. Domingos de Benfica

• Oriente

• Campolide

Freguesias Alteradas

• Santo Condestável + Santa Isabel

• S. João + Penha de França

• Anjos+S. Jorge de Arroios+Pena

• Campo Grande + S. João de Brito + Alvalade

• Lapa + Santos + Prazeres

• S. Sebastião da Pedreira + N. S. Fátima

• Alto do Pina + S. João de Deus

• S. Francisco Xavier + S. Maria de Belém

• S. Vicente de Fora + Graça + S. Engrácia

• Charneca + Ameixoeira

• Mercês + Sta. Catarina + Encarnação + S. Paulo

• Mártires + Sacramento + S.Nicolau + Madalena + Sta. Justa + Sé + Santiago + S. Cristóvão/S. Lourenço + Castelo + Socorro + S.Miguel + Sto. Estevão

• S. Mamede + S. José + Coração de Jesus

Considero que a junção de 12 freguesias para uma só e freguesias com problemas muito diferentes como a zona de Alfama com a zona do Chiado ou do Intendente, pode ser prejudicial. Mas penso que a situação actual não é boa e se calhar mais vale ver se existe um melhor alternativa.

Antiga cerca Moura ou romana

"Lisboa romana, Lisboa moura, Lisboa dos cruzados: o desenho da cidade fez-se entre muros e depois galgou-os, digeriu-os, apagou-os. Procurar, estudar e iluminar o que resta é o projecto do Museu da Cidade.
Numa rua do bairro da Sé, as picaretas abrem o que parece uma vala. Telefone? Gás? Cabo? À volta, uma cerca de metal isola o trabalho. Um cartaz explica: é de "Estudo e Valorização da Cerca Velha de Lisboa" que se trata. A cerca velha (em oposição à cerca nova, a muralha mandada construir em 1373 pelo rei D. Fernando para suster as invasões castelhanas e que ganhou o cognome de "fernandina), passa algures por aqui, não se sabe exactamente onde.
A sondagem não resulta: fecha-se o buraco e recomeça-se mais abaixo, no largo de Santo António da Sé, onde, crê-se, estará situada a "porta de ferro", a entrada principal da cidade moura. Um buraco, dois, e nada. "Estamos a tentar perceber onde ela está. Andamos mais para oeste ou para este, à procura." A arqueóloga Manuela Leitão, 47 anos, coordenadora do projecto, tem uma explicação para a dificuldade: "Esta zona sofreu obras de reestruturação urbanística depois do terramoto de 1755. Limparam muita coisa e as cotas das ruas foram rebaixadas." Pode ser até que nada se encontre e que o traçado da muralha permaneça estimado, como na obra de referência do olisipógrafo Vieira da Silva (que nos finais do século XIX desenhou o traçado com base em estudos documentais), numa curva que prossegue a linha recta da Rua da Padaria e sobe na direcção do castelo, talvez sob os jardins suspensos que fazem das traseiras da Rua de São Mamede ao Caldas uma das maravilhas invisíveis de Lisboa. Mais um sortilégio escondido, então, o desta muralha que na sua zona oriental é visível em vários troços - aquilo que Manuela chama "panos". "Com o tempo a muralha foi 'engolida' pelo crescimento da cidade. Há uma série de edifícios que a usaram como mais uma parede, as torres foram sendo ocupadas. Mesmo quando não se consegue ver ela continua perceptível pelo alinhamento das ruas, das fachadas dos prédios." Também as escavações da parte oriental da muralha têm tido mais sucesso: a parte da cidade que lhe corresponde mantém as mesmas características há muito e os solos não sofreram aquilo a que a arqueóloga dá o nome de "desmobilização de terras", estando preservados todos os níveis ou estratos antigos: "Os níveis mais antigos que encontrámos pertencem à Idade do Ferro, século VI antes de Cristo."
Viabilizado financeiramente em 2008 através de uma parceria com o Instituto do Turismo, este projecto, no qual concorrem "dezenas de pessoas", incluindo, além dos investigadores - arqueólogos, geólogos, historiadores e antropólogos - desde cavadores a polícias, passando por bombeiros, existia como ideia no Museu da Cidade desde o final dos anos 90, como forma de recuperar a memória e a presença de um monumento que, afirma Manuela Leitão, "estava esquecido". A ideia é localizar e assinalar com o máximo de certeza possível as portas e alinhamentos dos cerca de dois quilómetros da muralha medieval, restaurar os panos expostos e proceder à sua iluminação monumental, assim como estabelecer percursos pedonais com sinalização ao longo da muralha. "A última fase do projecto será a instalação de um centro interpretativo sobre a muralha de Lisboa, que terá como objectivo principal o dar a entender a muralha inserida nas várias cidades onde esteve." Várias muralhas, várias cidades: se o nome dado à cerca medieval é "velha", não se trata afinal da mais idosa. Há vestígios de uma muralha do século I e de outra construída mais tarde, no século III/IV, ambas pelos romanos e cujo traçado terá sido, crê-se, aproveitado em parte pelo muro medieval - primeiro islâmico e depois cristão - que se lhe seguiu. É dentro desse mistério, o de saber a que ponto as muralhas romana e medieval se sobrepõem, que Vítor Filipe, 35 anos, passa os dias, no rés-do-chão da Casa dos Bicos. "Estamos a tentar perceber coisas que as escavações mais antigas não esclareceram. Encontrámos algumas estruturas que não eram conhecidas e estamos a tentar interpretá-las." O trabalho, de paciência - "A arqueologia às vezes é um pouco chata, não corresponde à ideia romântica que as pessoas têm e a parte mais interessante, a da descoberta, acaba por ser reduzida" -, e muito complexo, explica o arqueólogo, pela segmentação que torna mais difícil compreender a articulação das estruturas encontradas e pela presença da água, que não só dificulta a visão como mistura os níveis. "Temos todas as sondagens ao nível freático, algumas com mais de dois metros de profundidade. Às vezes é um pouco frustrante, mas também é aliciante por ser tão complexo." Até ao final de Agosto, altura em que está calendarizado o final da intervenção na Casa dos Bicos, Vítor espera satisfazer duas grandes curiosidades: "Uma é a da cronologia da construção da muralha romana tardia (que já encontrámos) e se a cerca fundacional romana passa ali. Outra é de quando é a construção da fábrica romana de salga de peixe cujos tanques se encontraram. Sabemos que a muralha fundacional romana tem dois metros de espessura e que a muralha a seguir, do séc III, tem três. Está lá uma muralha com um metro de espessura, mais antiga que essa, mas não sabemos se é a fundacional ou outra, por exemplo da fábrica."
Vítor Filipe, que não faz parte dos quadros do Museu da Cidade, entrou no projecto em Dezembro, tendo começado pela escavação da rua São João da Praça (junto à Sé de Lisboa), onde foi descoberto um pano da muralha durante as obras de um restaurante, o Páteo de Alfama (em todas as obras que envolvam "remexer terras" na zona classificada tem de haver escavações arqueológicas antes), que o integrou no seu espaço. Aliás, o acolhimento dos habitantes e comerciantes da zona de incidência ao projecto tem sido, diz Manuela Leitão, de bastante interesse. "Por exemplo: há um snack bar que se chamava Arco Íris e mudou de nome, para 'Porta de Alfama', porque uma das portas da muralha era naquela zona; vêm-nos perguntar quando fazemos uma exposição para mostrar o que encontrámos, comen- tam 'Ai que giro'. É bom que as pessoas tenham esse entendimento, porque o património é de todos."
O património como casa de família e morada, como um lugar em que se caminha em camadas de tempo e sentido, aprendendo a ver. É o caso do historiador Miguel Gomes Martins, 45 anos, da divisão de arquivos da Câmara Municipal de Lisboa. "Comecei a tomar mais um pouco de atenção aos locais onde ponho os pés e a olhar um pouco mais para as paredes em vez de só olhar para cima à procura das torres." Há três meses no projecto da cerca velha, este medievalista, cujo trabalho é o completar, informar ou contrapor, através da pesquisa documental, as descobertas arqueológicas, já teve algumas surpresas: "Foram achadas barbacãs - que são uma espécie de pré-muralhas, uma primeira cintura de muralhas, erguidas em locais considerados mais sensíveis -, uma a leste do perímetro e outra no local onde, de acordo com os documentos, se julgava estar."
Os documentos em causa são sobretudo descrições - de geógrafos muçulmanos, nomeadamente - e registos (de transações e alugueres de casas), assim como alguma iconografia, já que a primeira planta cartográfica de Lisboa digna desse nome é de 1650. Quanto à descoberta na cidade material, é sobretudo "um jogo de puzzle mental". Ver a cidade medieval na Lisboa de hoje: "Um emaranhado de casas, algumas de cinco pisos, ruas apertadas e sinuosas, pisos poeirentos no Verão e enlameados no Inverno (as vias empedradas em Lisboa são bastante tardias), com palácios, muitas igrejas, alguns edifícios conventuais que se destacavam pela dimensão, com montes de lixo sobretudo junto às portas da cidade..." Uma cidade sem esgotos onde os dejectos eram lançados na rua (apesar de haver ordens em contrário) e onde a maioria das pessoas não teriam como prioridade tomar banho (apesar das estruturas criadas pelos mouros para as abluções diárias em Alfama, cujo nome virá exactamente de "nascente") - mesmo se, leal à sua paixão por uma época sempre associada à sujidade (no sentido material e espiritual), o historiador tenta desmistificar "a ideia de que durante uns séculos ninguém tomou banho". Uma cidade de cuja muralha velha escolhe um troço desaparecido: "O meu favorito é o da torre da Escrevaninha, que se situaria no quarteirão onde está hoje a igreja da da Conceição Velha (na rua da Alfândega). É o local onde uma das torres dos cruzados adossou à muralha, facto que foi decisivo para a rendição muçulmana." À falta dessa, escolhe ser fotografado noutro lugar de "combates intensos em 1147": a porta de ferro, no largo de Santo António da Sé, a tal que ainda não se descobriu. Só um pouco de imaginação, então: uma muralha, uma porta enorme revestida a ferro e os gritos e sons da batalha entre os cruzados invasores e os sitiados muçulmanos. E nós, resultado disso."

In Diário de Notícias

Porta de água


João Luis Carrilho da Graça venceu o concurso público internacional e impôs o seu projecto a nomes de grande prestígio na arquitectura mundial como Zaha Hadid ou Aires Mateusprojectos: Terminal de cruzeiros.
Lisboa vai ter um Terminal de Cruzeiros com projecto de João Luis Carrilho da Graça, que venceu o concurso público internacional e impôs o seu projecto a nomes como Zaha Hadid ou Aires Mateus.
Situado na zona de Santa Apolónia, o projecto de Carrilho da Graça procura ser um mediador entre a cidade e o rio. Ou, conforme o próprio explica no texto-síntese do projecto, "a criação do novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa oferece uma oportunidade rara de repensar e questionar a relação vivencial e urbana entre a cidade de Lisboa e o rio Tejo, alvo de inúmeras propostas ao longo dos séculos, uma consequência da importância desta relação na caracterização e desenvolvimento de uma cidade que assume a sua vocação portuária natural"
No seguimento deste pensamento, o arquitecto dá igual importância ao edifício construído - que alberga o programa do terminal de navios - e aos espaços exteriores adjacentes. E propõe um edifício volumetricamente compacto , que liberta o espaço envolvente, "reclamando-o para o uso público, oferecendo à cidade e aos bairros adjacentes um espaço verde de referência, com capacidade de comportar diferentes actividades", explica. Esta solução de transição entre as vivências do rio, edificado e parque apresenta ainda valências do ponto de vista urbano e paisagístico, explicadas por Carrilho da Graça : "A escala contida do edifício aproxima-o da escala urbana, enquanto o espaço libertado garante a distância necessária para contemplação da encosta de Alfama, marcada pelo skyline do Mosteiro de São Vicente de Fora e do Panteão Nacional, que se conforma como um anfiteatro em torno do porto."
Aparentando uma jangada e assumindo-se como uma nova porta da cidade, "o edifício preconiza uma solução simples e compacta, com grande racionalização dos meios e sistemas utilizados, aliada a um uso do espaço flexível". Qual pavilhão multiusos, o edifício responde exemplarmente às necessidades dos navios e mareantes, albergando espaços de check in, espera, cafetarias e lojas . Mas também propõe novos usos em complemento à sazonalidade da ocupação do terminal - com maior pressão nos meses quentes -, como espaços expositivos, destinados a eventos como ciclos de moda e cinema , feiras e mercados.
Esta versatilidade é acentuada pelos espaços imaginados por Carrilho da Graça: no interior, domina um grande hall de entrada, assumidamente cénico graças ao pé-direito duplo e lanternim oval. No exterior, a pele construída é dominada por um percurso/promenade que envolve o edifício, permitindo a descoberta lenta da envolvente - enquanto se percorrem os vários alçados - e que culmina na cobertura do edifício, "que ganha características de palco, relacionando-se com o rio sem qualquer tipo de obstáculos, como uma praça elevada".
Mais perto da cidade, o parque urbano/verde evoca os boulevards que ao longo dos tempos foram propostos para Lisboa, como aconteceu nos séculos XVIII, XIX e XX pelas mãos de Carlos Mardel e Thomé de Gamond, entre outros. Do ponto de vista formal, este espaço "organiza-se como um eco da doca, definido por elementos que se dispõem paralelamente aos seus limites longitudinais, como as longas fileiras de árvores ou passeios".
Entre a cidade e o rio, e permeável a ambos, o futuro Terminal de Cruzeiros será um ponto notável na cidade e marca o regresso de Lisboa à sua vocação marítima. Através da arquitectura de Carrilho da Graça, "a relação visual rio/cidade ganha tanta importância como a da cidade/rio, encontrando-se o parque e o edifício na transição, coexistindo e potenciando-se mutuamente".
O arquitecto Carrilho da Graça ganhou o concurso para projectar o novo terminal de cruzeiros de Santa Apolónia, lançado em Março pela Administração do Porto de Lisboa (APL). O júri, que avaliou os 37 trabalhos concorrentes, foi unânime ao considerar que a proposta de Carrilho da Graça se traduz "num claro benefício" para a cidade e para o seu porto. O projecto do autor de alguns edifícios emblemáticos da capital - como o Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na antiga Expo "98, ou a recente Escola Superior de Música - convenceu o júri por incluir um "edifício relativamente pequeno, com uma volumetria delicada", sublinhou o grupo de avaliadores composto pelo arquitecto catalão Juan Busquets e o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, entre outros. Ao PÚBLICO, Carrilho da Graça explicou que a ideia-base do projecto foi "partir da intervenção que a APL quer fazer na zona e criar espaços que possam ser desfrutados pela cidade, independentemente de haver cruzeiros ou não". A dimensão prevista permite minimizar o impacte visual do terminal, um assunto que tanta polémica suscitou no passado junto dos moradores do bairro de Alfama. Estes temiam perder a vista sobre o Tejo, caso avançasse o anterior projecto da APL. O júri apreciou também a cobertura visitável do terminal, o que converte o edifício numa "nova topografia da cidade, entre a colina de Alfama e o Tejo", salienta a APL, no comunicado em que anuncia o vencedor. Outra preocupação do arquitecto foi tornar o espaço polifuncional. "Nos períodos com menos paquetes, a zona pode ser utilizada com outros objectivos, como concertos ou exposições", explica. Além de um grande parque verde urbano, que preenche a área envolvente, eestacionamento (para cerca de 80 autocarros), a proposta vencedorainclui um anfiteatro exterior com vista para o rio e para a cidade. O terminal de cruzeiros vai juntar-se à lista de obras emblemáticas deste arquitecto, que tem no currículo ainda a Escola Superior de Comunicação Social e a extensão do Palácio de Belém.
A primeira fase do projecto deverá estar concluída em 2013. Terá uma área total de 7790 metros quadrados, envolve um investimento superior a 25 milhões de euros, pagos pela APL, que promoveu o concurso em parceria com a Câmara de Lisboa e a Ordem dos Arquitectos.
Além do projecto de Carrilho da Graça, o júri destacou, pela qualidade, mais quatro projectos. Receberam menção os gabinetes de Aires Mateus Arquitectos, Guillermo Vazquez Consuegra, ARX Portugal Arquitectos e Zaha Hadid Limited.
 
In Publico
 
Comentário de Blogger:
Apesar de parecer bem melhor que a anterior proposta. Pelo menos espero que fique como aparece e que o jardins sejam para todos os cidadão e não apenas para os turistas.
Mas esperemos que seja apresentado o plano à população para podermos ver, discutir e se for bom para a cidade e Alfama, aprovar.

Entrevista com Argentina Santos

Antes de receber a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa, Argentina Santos recorda desgarradas e histórias de família, fala dos poemas das ruelas de Alfama e das novas vozes do fado
Marcou a entrevista para a hora do chá e, à chegada do gravador e da máquina fotográfica, tinha bule e torradas prontas. "Os senhores vêm do jornal? Sentem-se, por favor, que já sei que isto não vai demorar cinco minutos." Argentina Santos, 86 anos, 62 de carreira, gere a casa de fados Parreirinha de Alfama e faz de cada resposta uma história curiosa de outros tempos. Não vale a pena falar do AVC que sofreu no ano passado nem de "gente que não interessa". O seu é um dos grandes nomes da história do fado e basta-lhe recordar poemas e desamores para se desfazer em lágrimas.
Vai ser homenageada esta semana, a segunda vez este ano.
Sim, mas a primeira foi muito ao de leve, passou despercebida. Sei que muita gente só me vai conhecer agora, mas eu já estou aqui [na casa de fados] há 62 anos. Mas não tenho vaidade. Nem nunca fui às rádios pedir para pôr um disco meu. Nada disso. Mas estou cá. Entrei aqui ainda não tinha 24 anos. E vou fazer 87.
Quando?
A 6 de Fevereiro.
Não tem vaidade. Mas tem orgulho?
Sim, isso sim. E fico em polvorosa quando ouço falar em mim. Numa destas noites estava a chegar a casa, ainda não eram duas da manhã, e ouvi o meu nome na rádio. Estavam a falar da festa. Fiquei... As lágrimas vieram-me logo aos olhos.
Quer isso dizer que olha para trás e fica satisfeita, conseguiu fazer o queria.
Isso nem eu nem ninguém. O mundo ainda estaria pior se toda a gente fizesse aquilo que quer. A gente só faz aquilo que pode, aquilo que nos deixam, e isso já é bom.
Deixaram-na fazer muita coisa?
Foi complicado... mas isso já passou.
Mas não desaparece.
Sim, é como o vinho, quando está bom ganha aquele resíduo. Essa parte não se bebe, o resto é que conta.
Ainda canta todos os dias?
Canto quando é preciso cantar, quando tenho público que gosta de fado. Agora se é público que gosta de marchas e palminhas, eu não sei fazer isso.
Quem vem à Parreirinha são os turistas ou são sobretudo portugueses?
Tenho de tudo um pouco. E os estrangeiros, a maioria, já sabe o que é fado e o que é bater palmas.
As palmas aborrecem-na?
Não, isso não me aborrece nada. As pessoas quando vêm de férias vêm para se divertir, não para um velório. Mas já tive de tomar atitudes. Em tempos fui cantar a uma igreja, a uma festa que costumam fazer para arranjar uns tostões. Estava a cantar e pediram-me a "Lágrima". Pois toda a gente sabe que a "Lágrima" é uma coisa com sentimento. E estavam duas senhoras a dançar. Eu disse "estou a gostar muito de ver aquelas pessoas dançar, quando elas acabarem eu canto".
O fado é, portanto, uma canção que requer disciplina.
O problema é que as pessoas vêm ouvir fado mas não sabem o que é fado. No fado tem de se tomar conta no que se canta. E um poeta faz coisas muito bonitas de uma só palavra. É como uma reza.
A religião é importante para si?
Sou muito religiosa, mas não espero que cantem por mim, peço é ajuda aos meus santinhos.
Não canta se o fado não lhe disser nada?
Não, tem de falar de mim, da minha vida, de alguma coisa que me esteja a acontecer. Mas não quero que toda a gente sinta assim o fado.
Porquê, se diz que é assim que tem de ser?
Porque seria uma tristeza. Para isso mais valia ficar em casa. Mas quem não gosta não estraga.
Qual é o seu fado favorito?
Um poema à minha mãe, do Augusto Martins. Foi ele que fez e que me ofereceu. Chama-se "Duas Santas".
Mas também há fados alegres.
Sim, mas é preciso ver a letra e saber se podemos cantá-la ou não. Eu não posso cantar uma coisa à minha mãe, que já morreu há tantos anos, e rir-me à gargalhada. Se o fizer sou parva. A minha mãe, tenho que a cantar com sentimento. Porque é quando os nossos não existem que a gente se lembra mais deles. Claro que depois há gente que bate palmas a tudo. Essas pessoas vêm ao fado por vaidade, não é porque gostam. Não estão a sentir nada. Mas esta é uma conversa que não tem nada a ver com a minha homenagem.
E na sua opinião o que a destaca de outros fadistas para ser homenageada?
Isso eles é que sabem. Eu não pedi nada a ninguém. Se o fazem é porque tenho sido uma pessoa honesta, fiel aos meus pertences. Quem está ligada a uma casa e aos seus empregados há 62 anos merece qualquer coisa.
Antes de trabalhar na Parreirinha o que é que fazia?
O que calhava. Levantava-me às quatro da manhã, ia descarregar barcos de peixe. Ou ia vender, fruta, hortaliça, peixe, o que havia. Até podia ter vendido chumbo, mas não calhou. Um dia não tinha que comer fui carregar umas sacas e deram-me sete tostões.
Isso representava o quê?
Olhe, ia-se a uma casa de pasto e comia--se uma sopinha. Quando me vi com aquele dinheiro nem acreditei.
A sua família vivia com dificuldades.
Vivíamos muito mal. O meu pai não morreu, matou-se, tinha eu dois anos. A minha mãe ficou com quatro filhos. Eu fiquei entregue à minha madrinha. Mas não queria que ninguém passasse fome. Ia para a Ribeira arranjar carapaus e sardinhas e levava para casa. À noite íamos para o Limoeiro. Conforme davam comida aos presos davam-nos a nós. Quando não chegava para todos, ia numa carroça para as Mónicas, para as presas.
Mas quando chegou ao restaurante já tinha uma vida diferente?
Sim, morava na minha casa nas escadinhas da Bica, onde estive dos 16 aos 37. Mas fazia sempre a vida em Alfama.
E foi em Alfama que começou no fado?
O fado apareceu porque tinha ligação com um senhor que foi quem tomou esta casa. Eu tinha jeito para cantar e comecei numa desgarrada. Nessa altura nem se cantava à viola, era só à guitarra e ao piano. E os clientes pediram-me para continuar a cantar. Quinze anos depois esse senhor morreu. Para ficar por aqui teve a casa de ser comprada. Ele não era meu marido, era casado com outra pessoa, não podia ser comigo. Era um companheiro.
Começou a tomar conta da cozinha.
É uma coisa que gosto muito de fazer. Não sei se gosto mais de cantar se de cozinhar. Mas gosto é de improvisar, não me mandem cozer batatas com bacalhau.
E hoje, continua pela cozinha?
Sim, e ensino muito bem. Eu é que tomo conta disto tudo. Escolho e compro, digo como se faz e não se faz... Ensino. Porque se vierem aqui e não comerem bem... Para gastar dinheiro é em qualquer lado.
Tudo isto aconteceu quando?
Em 1963, um ano antes de fazer asneira.
Asneira como?
Casei-me. Não correu muito bem. Ao fim de cinco anos o meu marido ficou numa cama, com uma trombose. E não era pêra doce, era uma pessoa complicada. São chatices que nós arranjamos.
E entre as chatices onde estava o fado?
Nos espectáculos. Fazia muitos, sobretudo lá fora. E agora não tenho feito mais porque não tenho vida para isso. Mas vêm aqui ao restaurante perguntar por mim.
Quem é que canta na Parreirinha? Chegam aqui fadistas e dizem-lhe "olhe, quero cantar aqui"?
Não, fado vadio não é aqui, é nas lojas dos 300, há muitas por aí. Aí canta quem calha. Não canta o almeida que anda a limpar às ruas porque não calha.
Os fadistas de hoje são diferentes dos que conheceu há 40, 50 anos?
Acho que hoje vão rezar muitos padre- -nossos ao pé da senhora dona Amália. Porque foi ela que deixou cá a herança. Deixou cá coisas bonitas para elas estragarem. Mas há coisas que nunca mudam. Isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda. Só depois os outros. Raro é aquele que pensa "Deus queira que na tua vez te batam palmas assim".
Mas há quem cante muito bem.
Claro que há. E com uma coisa a favor: eles têm repertório, como as coisas da dona Amália, uma mestra, uma pérola que caiu do Céu. Pena é que muitas vezes não sintam nada do que estão a dizer. Mas como é bonito ainda levam palmas. Só que as palmas não são para elas, são para quem fez o fado, para os outros que o cantaram.
Era mais próxima de algum fadista em particular?
Conheci muitos, dei-me com toda a gente. Mas o que as pessoas eram a cantar podiam não ser em casa. A Amália era uma artista, mas eu não frequentava a casa dela. Mas como artista, para mim, é a maior. Hoje há gente a cantar bem, tão bem que se fossem do tempo dela ela não tinha ido tão longe. Além de cantar bem, não foi ela que se pôs lá em cima, puseram-na.
Carlos do Carmo diz que a Argentina é a última representante da geração de ouro do fado...
Isso depende do gosto. Mas sempre fiz as coisas à minha maneira, deve haver alguém que goste. E não é fácil gostar porque sempre fiz tudo à minha maneira. Se me dissessem que estava a cantar mal dizia logo "então cante você". Mas quando eu comecei a cantar ainda o Carlos do Carmo era um menino.
É um dos seus maiores fãs.
Sempre gostei muito daquele menino, era muito esperto. Vinha aqui ter com a mãe, de calçãozinho. Tinha ele 14 anos e ouvi-o a falar com o pai, até fiquei espantada. O pai queria comprar uma casa ao lado do Faia. E o miúdo dizia "não te metas nisso, já tens a outra casa para te dar dores de cabeça". Estava eu numa mesa perto da deles na Feira Popular. Fiquei com uma coisa por ele que não sei explicar, como se fosse meu filho.
E ele não se cansa de a elogiar...
É. Canso-me mais eu, mas não é dele nem de cantar.
Cansa-se de quê?
Não me canso de cantar, mas canso-me disto, de tomar conta da casa. É até um dia.
 
In Jornal I

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