Imagens de Alfama

Habitar entre paredes que ameaçam cair

Prédio de Alfama ainda acolhe duas famílias, mas a fachada está a desprender-se das paredes
"É hoje que a fachada cai. É hoje que cai...". Todos os dias, Maria Pereirinha é assaltada por este pensamento perturbador. Ela e o vizinho. Ambos ousam ainda morar no velho prédio de Alfama, em Lisboa. Mas não sem medo.
Quem passa pela Rua Terreiro do Trigo nem imagina a agonia que reina entre aquelas paredes. A cara lavada da fachada com tinta (já esbatida por uns quantos anos de exposição ao sol), para disfarçar os efeitos de um incêndio, escondem tectos caídos e soalhos apodrecidos pela entrada da chuva. Nas traseiras, mais resguardadas de olhares indiscretos, há buracos abertos nas paredes que dão para a rua, engalanados por ervas daninhas.
"Quando chove, parece que estamos na rua. Há ratos e bichos por todo o lado. Ninguém faz nada. Parece que se esqueceram de nós", queixa-se Maria Pereirinha, 64 anos, que habita aquele prédio com a filha, uma neta e um bisneto. Já só Maria tem coragem de pisar o varandim da frente. A fachada desprendeu-se há muito das paredes, abrindo uma fissura onde a moradora já consegue mergulhar o braço.
"Nós queixamo-nos e nada. Já pedi para fazerem obras. Até nem me importava que me aumentassem a renda", explica a mulher, criticando o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, por não resolver o problema. "Empurra a questão para a Câmara e a Câmara faz o mesmo. Todos dizem que não têm dinheiro", desabafa a moradora.
José Emídio, vizinho de Maria Pereirinha, que tem também a casa a cair aos pedaços, explora um café, no rés-do-chão do mesmo prédio, onde as mazelas saltam à vista. "Veio cá, a mando do senhorio, uma senhora que tirou fotografias aos buracos e humidades, mas nada se fez", avançou o homem de 57 anos, nascido entre aquelas paredes periclitantes.
O prédio, muito comprido, com mais de meia dúzia de números de polícia, comércio no rés-do-chão e muitas casas devolutas nos primeiros e segundos andares, está nas mãos do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS) há três anos, que o recebeu da Mansão de Marvila, um lar de terceira idade e centro de acolhimento para jovens com problemas de inserção.
Nenhuma destas duas entidades procedeu a obras. "Há 30 anos, colocaram-me soalho de madeira no chão da cozinha", precisa Maria Pereirinha, que vai tapando os buracos e as infiltrações com tectos falsos improvisados, recorrendo a plásticos e madeiras.
Contactada pelo JN, fonte do IGFSS, disse apenas que o organismo está a par da situação do prédio e que "está a desenvolver esforços para que a obra seja feita no mais curto espaço de tempo possível", sem, contudo, avançar com datas.
Também a Unidade de Projecto de Alfama, gabinete técnico que coordena as intervenções no bairro, conhece o estado de agonia do imóvel, adiantando que o senhorio já foi intimado para proceder a obras de conservação.
"Um desperdício. Tantos casais que poderiam estar a habitar o prédio se fosse bem aproveitado", critica, por sua vez, Francisco Maia, presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel. "A Câmara tem feito alguma intervenção, mas não pode, sozinha, resolver todos os problemas", argumenta, acrescentando que, nos últimos Censos, contavam-se quase duas centenas de prédios devolutos na sua freguesia.
In Jornal de Noticias por TELMA ROQUE

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