Imagens de Alfama

Os Bexigas - Conto baseado em factos reais

Naquele dia, igual a tantos outros, parecia normal. Tinha ido trabalhar e ao final do dia, como de costume, fui visitar os meus pais. Trabalho a cerca de 500 metros e não custa nada passar pelo restaurante deles. Estava a chegar quando ouvi conversas de pessoas na rua de que alguém tinha morrido. Não percebi quem.
Quando entrei no restaurante a curiosidade, algo “genético” de quem é de Alfama, chamado de cusquice pelos de fora, fez-me perguntar quem tinha morrido.
“O Bexigas” – disse a minha mãe.
-“Caiu pelas escadas quando estava a subir. Andava sempre bêbado. Era o desgosto. Enterrou duas mulheres, um filho e os dois que cá andam, tu sabes”.
E sabia. Os Bexigas é daquelas famílias que quem a conheceu ao início nunca podia pensar que iriam terminar assim. É o fado de Alfama.
A família não tinha o nome de Bexigas. Na realidade nunca soube o nome de família. Eram os Bexigas por causa da doença que o pai tinha – Bexigas. Tais nomes são típicos de Alfama – existem os das gravatas, os pipis, os do barracão, etc. Títulos de um bairro do povo.
O pai casou a primeira vez e teve dois filhos. Eram os filhos da mamã. Gémeos. A mãe nunca os deixava sozinhos. Eu era pequeno, mas lembro-me de ver aquela mãe a passear na rua de S. Pedro com os dois meninos pela mão. Eram considerados os meninos mais bem comportados de Alfama. Grandes esperanças tinha aquela mãe nas suas crias. O pai tinha deixado a educação para a mãe. Resquícios da “outra senhora”. O pai trabalhava na estiva e era essa a sua função para a estabilidade da casa. A mulher tinha a função dos filhos e da casa e segundo consta muito bem. Conforme dizem os mexicanos “os alicerces da casa não é o chão mas a mulher”.
No entanto o fado de Alfama voltou a falar. Um cancro veio abalar os alicerces da família, senão mesmo destruí-los. Os meninos ficaram órfãos de mãe, quando a sua educação não estava minimamente completa. Ficaram desamparados, sem mãe, com um pai presente mas ausente. Num bairro onde a droga entrava facilmente, onde a falta de esclarecimento e o prazer inicial que estas davam, esquecendo todos os males do mundo, fizeram muitos cair em tentação.
A desgraça apoderou-se da mente frágil do Bexigas. O álcool era como que um escape para a desgraça que tinha de enfrentar diariamente. Como iria ele tomar conta da família? Como iria ele fazer a função que nunca soube? Como poderia ele ser os alicerces da casa se ele próprio baseavasse na mulher? Como?
Sem reparar deixou os dois filhos desamparados andavam na rua mas sem a mão da mãe, andavam desejosos que alguém lhes desse a mão. E nessa altura quem aparece não é a pessoa mais indicada. Amigos, que dizem ter a solução para a tristeza, que lhes prometem o céu, mas que lhes dão o inferno.
Passado algum tempo casou novamente e teve outro filho. Mas vida nunca mais foi igual. Não sei se por desgosto, se por infelicidade ou se por fado. O álcool passou a fazer parte da vida. Da dele e da nova mulher. Os filhos mais velhos foram como que deixados ao vento. Não sei por culpa de quem, de todos, ou se houve mesmo culpa, senão do fado. A droga entrou na família pelas mãos dos irmãos mais velhos. Lembro-me de vê-los caídos nas ruas de Alfama. Os filhos da mamã estavam perdidos. Nunca mais foram capazes de fugir a este vício. E a droga trouxe todos os outros problemas. Já foram presos inúmeras vezes, são mal vistos no bairro, e quando estão soltos não conseguem arranjar emprego. Mas nunca os ouvi serem mal-educados, resquícios da educação da mãe, que continuava a soar naquelas cabeças.
Quanto à segunda mulher faleceu há cerca de 2 anos com uma cirrose. O fado da família continuo a mandar na família.
Mas não é da família Bexigas que vos quero falar, mas do filho mais novo, o Paulo. Esse, eu conheci desde menino. Jogámos futebol, falámos de namoradas, andámos á porrada por razões estúpidas. No fundo, crescemos juntos. Em 2007 faria cerca de 29 anos se fosse vivo. Era um miúdo inteligente, bonito, traquina, magro, que me vencia, sempre a jogar xadrez. Mas aquela mente não parava. Podia ser alguém na vida, mas o fado não o deixou. Vivia numa casa destroçada – Por um pai que vivia no passado, por uma mãe que por nunca se sentir ser os alicerces, desligou-se dos mais velhos (que nunca os considerou dela) e não deu atenção ao mais novo. Se quisesse não estudava, nem ia às aulas. Muitas vezes nem a casa ia para comer. E nunca ninguém se preocupou. Cresceu com a ideia de uma vida fácil. E foi essa vida fácil o seu fado.
Sem estudos, os empregos não prestavam e eram mal pagos. Sem família para o orientar. Num passo caiu na tentação do dinheiro fácil – a prostituição. Queria o que via nos outros e não podia ter. Conforme me disse um dia “se não tivesse visto riquezas, não me importava de ser pobre”. Conforme dizia o povo – Ganhava dinheiro só por baixar as calças.
Mas o povo esquece-se o que isso faz à cabeça dos rapazes. Aquilo por que passaram, por que passam, o que fazem para ter aquele dinheiro “fácil”, tem de ser esquecido. Nada melhor do que a droga para ajudar a ter este dinheiro “fácil”.
Não sei se pela droga se por ter relações desprotegidas (soube que essas são mais bem pagas) o destino pregou-lhe novas partidas – o HIV/SIDA.
Não sei quando a apanhou, mas lembro-me ver aquele rapaz onde a inteligência o tinha colocado assim, a beleza tinha desaparecido, a traquinice tinha-se desvanecido, mas magro, magro como nunca. Ninguém lhe dava 24 anos. A vida fácil foi muito desgastante e tinha tornado velho e doente um rapaz jovem.
O Paulo Bexigas nunca foi piloto de aviões da força aérea, seu sonho de criança, nunca casou com uma mulher loira e bonita, nunca teve uma casa em Cascais. No final nunca teve vida.
O fado de Alfama ganhou mais uma vez. No fim ficou-me a lembrança deste jovem que no futuro ninguém se vai lembrar, onde os sonhos escorreram pelas mãos como areia fina, onde os sonhos se tornaram pesadelos e a vida fácil tornou-se num inferno.
A morte do pai Bexigas veio colocar fim à sua vida desgraçada. Duma vida talhada na pedra para a felicidade mas que uma falha veio estragá-la.
Fados de Alfama.

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